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22/09/2018

Talvez seu ídolo não seja como você espera

Foto: @rush Instagram

Há quase uma década sou um entusiasta do Rush. Entre vinis, CD's e DVD's colecionados, há um reconhecimento de minha parte pela contribuição da banda canadense não só para o rock, mas para a música. A admiração se estende a Neil Peart. O baterista não se restringe a banda, e também é autor de quatro obras literárias (O Ciclista Mascarado [1996], Ghost Rider - A Estrada da Cura [2002], Longe e Distante [2011], e Anjos do Tempo [2012], esse ficcional e mais a parte das experiências de Peart, e com colaboração de Kevin Anderson)

As composições de Neil Peart, devo confessar, coincidem com a minha visão de mundo e muitas das vezes são capazes de mudar o meu conceito ou aprimorá-lo sobre algo. Mas ser fã de um artista não deve significar estar 100% de acordo. Cronologicamente falando, ao lançar O Ciclista Mascarado, Neil retrata um período de férias do baterista em que ele conheceu a África (em especial Camarões) viajando de bicicleta. Tomando como um objetivo meu, conhecer a África tem um significado muito importante. É uma questão muito mais de conhecer uma cultura que foge completamente do que somos, e do que temos. Seria muito fácil viajar para a África para conhecer a beleza exótica do Safari, entre outras coisas. Porém ver a pobreza de perto requer uma preparação, sobretudo espiritual. Observar a simplicidade da maioria do povo e a humildade de muitos obviamente mudaria seu ponto de vista sobre as coisas, sobre o seu mundo, e como você se encaixa nele (alusão a Clockwork Angels).

Já em Ghost Rider, Neil detalha o período mais difícil de sua vida, ao perder em um curto intervalo a filha Selena, de 19 anos, e a esposa Jackie, em 1997. Um verso de Dreamline, canção lançada seis anos antes, se encaixa perfeitamente com o momento em que o baterista passava. Neil pegou sua moto e saiu sem rumo viajando pelos EUA e México ("We're only at home when we're on the run"). A atitude funcionou como uma catarse para Peart, que voltou a banda e cinco anos depois lançaram Vapor Trails.

E para fechar, em 2011 o baterista lançou Longe e Distante, último livro até o momento de cunho pessoal, onde detalha as aventuras de moto durante e entre as turnês do Rush, comentando sobre seus relacionamentos, em especial já com a segunda esposa Carrie, e sua filha .

Talvez não falte palavras para Peart somente nas letras do Rush e em seus livros, pois o baterista sempre foi reservado. No documentário lançado em 2010, Beyond The Lighted Stage, a timidez de Neil é mencionada, em especial por Tim Commerford, baixista que já passou por Rage Against The Machine, Audioslave e atual baixista do Prophets of Rage. Em um episódio, Tim conta até com certa dose de humor que um dia, como fã, foi vítima da indiferença de Neil. Mas o "novato" (como é chamado por Geddy Lee e Alex Lifeson, por ter entrado para a banda somente depois da saída de John Rutsey), revela que não age dessa forma por se sentir superior ou nada do tipo, mas sim por pura e simples timidez.

E então chego ao ponto que gostaria: talvez seu ídolo não seja exatamente como você espera, mas é justamente essa diferença muda sua visão, fazendo-o "descer do pedestal" e tornando tão humano quanto você. A vida, a personalidade e a visão de mundo de Neil Peart podem condizer com a minha ou não. Sua personalidade pode ser questionável. Mas, assim como qualquer ser humano, ele carrega uma história. O modo de agir e pensar só o tornam mais humano, apesar de ser sobrehumano quando com as baquetas (e com caneta e papel).


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03/09/2018

A obra-prima de Bob Dylan



No dia 30 de agosto de 1965, Bob Dylan lançou aquele que seria seu álbum mais importante, Highway 61 Revisited. Nele o músico mistura rock com blues, mudando a direção de sua carreira. O disco ainda traz a música que seria o seu maior sucesso, Like a Rolling Stone.

Dylan começou a apontar mudanças no disco Bringing it All Back Home, lançado em 22 de março de 1965. Foi nele que o artista trouxe pela primeira vez músicas com instrumentos elétricos. Mas em Highway 61 Revisted que essa transformação foi completada. É nesse álbum que Dylan rompe com o folk em nove músicas, todas com instrumentos elétricos, trazendo seu primeiro álbum totalmente de rock.

Abrindo com uma linha de bateria marcante e em segundos sendo controlada por piano, órgão e guitarra, temos Like a Rolling Stone, considerada a melhor música de todos os tempos em lista realizada pela Revista Rolling Stone em 2004. Em 6 minutos, Bob Dylan nos traz versos como, "você não deve deixar que outras pessoas levem seus pontapés por você" e "quando você não tem nada, você não tem nada para perder, você é invisível agora, você não tem segredos para esconder", evidenciando toda poesia contida em suas composições. A música também foi revolucionária ao ser lançada como single, já que as rádios costumavam tocar canções com média de 3 minutos.

A segunda música, Tombstone Blues, é um rock de garagem com influências do blues e traz, novamente, ótimas linhas de bateria. It Takes a Lot to Laught, It Takes a Train to Cry é uma balada blues, que quebra o ritmo mais rock do álbum, com solos de gaita que se encaixam perfeitamente com a melodia. Mas essa calmaria acaba com, From a Buick 6, outro rock de garagem com blues.

Encerrando a primeira parte do álbum com a música Ballad of A Thin Man, Bob Dylan entoa seu piano como elemento principal, misturando com órgão, guitarra, baixo e bateria, criando um clima tenso e nos entrega uma das melhores músicas do disco. O músico questiona o Sr. Jones, que parece não saber onde está ou quem é, trazendo mais um exemplo de suas belas composições como no trecho, "Você esteve com professores, e todos eles gostaram de sua aparência, com grandes advogados você tem leprosos e ladrões discutidos, você passou através de todos os livros de F. Scott Fitzgerald, você é bem letrado, já se sabe bem, mas algo está acontecendo aqui e você não sabe o que é, sabe, Sr. Jones?".

O lado B é aberto com Queen Jane Approximately, música muito semelhante à Like a Rolling Stone, porém mais lenta. A sétima música é a que carrega o título do álbum, mistura elementos do rock, blues e folk. O nome é em homenagem à Highway 61, estrada que ligava Duluth, Minessota, cidade onde Bob Dylan cresceu, até New Orleans, Louisiana. Na música, o compositor apresenta diversos problemas e todos são solucionados na Estrada 61. "Oh, Deus disse à Abraão "Mate-me um filho", Abraão diz "Cara, você deve estar de sacanagem comigo", Deus diz "Não", Abraão diz "O quê?" Deus diz "Você pode fazer o que quiser Abraão, mas, Na próxima vez que você me ver vindo é melhor correr", Bem, Abraão disse "Onde você quer esta morte feita?", Deus diz, "Lá na Estrada 61.".

Com um piano envolvente e calmo, Just Like Thumb’s Blues é uma balada rock, com um dos melhores vocais de Bob Dylan. Essa música mostra outra característica marcante nas composições de Bob Dylan, a do trovador. Na música ele narra a história de um viajante perdido em Juárez, México, onde ele encontra prostitutas, álcool, drogas, corrupção e decide retornar a Nova Iorque, em mais uma daquelas letras que expõe a brilhante poesia contida nos versos de Bob Dylan. Para fechar o álbum, foi escolhida a música menos rock, uma composição com sua essência folk, mas que quebra com o gênero por ter 11 minutos, duração inaceitável para uma canção do estilo.


Em 2005, Highway 61 Revisited, foi considerado como o quarto melhor álbum de todos os tempos em lista feita pela Revista Rolling Stone e está na oitava colocação em lista com os 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame. Bob Dylan entrega uma obra-prima que influenciou toda sua geração, o colocou entre os maiores nomes da história da música e revolucionou a indústria, começando pelo próprio cantor.



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