Onde se respira música.

12/10/2018

Eminem mostra não ser nem a sombra de outrora em "Kamikaze"

 

"Ei, só vou escrever meus primeiros pensamentos / Ver onde isso me leva, porque eu sinto que quero socar a porra de todo mundo na cara, é!". Com essas palavras, Eminem inicia The Ringer, primeira faixa de Kamikaze, disco lançado de surpresa no último dia de agosto. Parece um início promissor, porém o que se vê é um Eminem que tem se perdido ao tentar acompanhar as tendências da indústria fonográfica.

O rap é, provavelmente, o estilo mais ouvido no mundo nos últimos dez, quinze anos. E é justamente por esse motivo que durante esse período o gênero se desenvolveu e ganhou vários subgêneros. Então, para qualquer artista, faz-se necessário se reinventar e "dançar conforme a música", ou melhor dizendo, se adaptar a indústria e ao que o público procura.

Esse tem sido um processo difícil para Eminem. Nem a capa, em homenagem ao debut dos Beastie Boys, é capaz de elevar o nível de um álbum que pouco ou nada oferece do que se espera de Slim Shady. The Ringer tem seu valor, com grandes rimas, mas Greatest pouco cativa diante de batida, elementos e riff de guitarra que não se encaixam, mesmo contendo o sample de Humble, de Kendrick Lamar. Joyner Lucas rouba a cena com seu flow em Lucky You, e Eminem se torna um mero coadjuvante. A melhor sequência vem com a autobiográfica Stepping Stone ("Eu vou lavar os meus pecados / Eu vou enxaguar essa sujeira / Eu esqueci de fazer as pazes / Com todos os amigos que eu posso ter machucado") e a urgente Not Alike, em parceria com Royce Da 5'9, com um piano de fundo que dão um clima diferente para as rimas.

A faixa que intitula o disco se mostra repetitiva e sem nenhuma criatividade diante de elementos e vocais que não evoluem. Fall, que conta com os vocais não-creditados de Justin Vernon, do grupo Bon Iver, se mostra uma parceria inefetiva, e isso foi alegado pelo próprio Justin, que a considerou repetitiva. A faixa ainda contém uma polêmica (já se esperava isso). Na faixa, Eminem chama o rapper Tyler, The Creator de "faggot" (gíria homofóbica). Vernon até pediu a Eminem que a música fosse alterada, mas sem sucesso.

A sequência mediana com Jessie Reyez tem Nice Guy e Good Guy. A primeira se mostra melhor, diante do vocal rasgado de Jessie no início. E para fechar, Venom, que faz parte da trilha do filme homônimo que foi lançado esse mês, tem um clima tenso e sombrio. A canção é um ponto fora da curva para o disco. A batida rebusca os sons pelos quais Eminem ficou conhecido mundialmente.

No geral, o disco tem altos e baixos, mas Eminem tem se mostrado perdido sobre qual caminho seguir, e esse se mostra um caso em que se adaptar ao mercado nem sempre é uma boa estratégia. O rap mais tradicional não está ultrapassado, ao menos ainda, e talvez seja esse o melhor caminho a seguir.


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05/10/2018

Discografia Maníaca #01: Kendrick Lamar - DAMN. (2017)

Ao iniciar uma lista de discos fundamentais, discografia básica ou álbuns obrigatórios, normalmente a primeira opção é o Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, lançado em 1967, ou algum outro dos The Beatles. Seja qual for a escolha, normalmente é algo antigo, que influenciou gerações e teve um grande impacto na indústria da música, e com todo mérito. A revolução que os garotos de Liverpool trouxeram com as experimentações no Sgt. Peppers são dignas de encabeçarem qualquer lista de melhores álbuns da história.

Mas para fugir da mesmice e trazer algo mais recente, que apesar de ainda não ter sobrevivido ao tempo, já é um marco e grande influência na música, decidi trazer o DAMN., quarto disco do rapper americano Kendrick Lamar, lançado em 14 de abril de 2017.

DAMN. é uma coleção virtuosa de músicas unificada por sua autenticidade e dinamismo rítmico que oferece uma visão da complexidade da vida moderna do afro-americano”, foi a classificação obtida ao ganhar o Prêmio Pulitzer da Música em 2018, sendo o primeiro álbum da música popular a receber a honraria, já que em 75 anos, apenas artistas de música clássica e de jazz haviam sido vencedores da categoria.

O rapper já tinha chamado atenção de todo mundo em 2015, quando lançou seu terceiro álbum, To Pimp A Butterfly, que trazia letras fortes, falando sobre racismo em um rap que contém elementos de jazz e soul music, e obteve ótimas críticas. Mas foi com o DAMN. que Kendrick Lamar registrou seu lugar como um dos maiores nomes do rap atual.

O disco mescla músicas que parecem terem vindo dos anos 90, com características mais hip hop puro como em DNA.ELEMENT. e HUMBLE., e um rap mais comercial em LOYALTY., música em parceria com a cantora Rihanna e LOVE. com a colaboração do cantor Zacari. O álbum ainda traz a participação do grupo irlandês U2 na música XXX., que mais parece ser um sample do que uma presença propriamente dita da banda de rock.

Apesar de soar atual, sem deixar de evidenciar as influências do passado, são as letras que fazem de DAMN. uma obra-prima. DNA., segunda música do álbum, se refere a um repórter que faz duras críticas ao rapper após uma de suas apresentações, dizendo “É por isso que eu digo que o hip hop causou mais danos aos jovens afro-americanos que o racismo nos últimos anos”. Em resposta, Kendrick Lamar canta, (me diga uma coisa / vocês filhos da puta não podem me dizer nada / eu prefiro morrer a escutar vocês / meu DNA não é para ser imitado / o seu DNA é uma abominação). O rapper ainda discorre estereótipos bons e ruins que a sociedade coloca aos negros, (eu tenho poder, veneno, dor e alegria no meu DNA), (eu tenho escuridão e maldade que apodrecem no meu DNA).

Na quarta música, ELEMENT., o cantor faz críticas à própria indústria do rap, (porque a maioria de vocês não é real / a maioria de vocês grita / a maioria de vocês apenas têm inveja, mas o ciúme os mata / a maioria de vocês joga pedras e tenta esconder suas mãos) e de que sempre tentou exaltar os outros rappers (no último álbum eu tentei levantar os artistas negros / mas há uma diferença entre artistas negros e artistas ruins).


Com HUMBLE., oitava música e vencedora de três prêmios no Grammy, Kendrick Lamar critica ironicamente os luxos da sociedade, os padrões de belezas impostos e o uso excessivo de photoshop, mas enfatiza no refrão que é preciso ser humilde, (calma aí vagabundo, baixa a bola, seja humilde). Outro ponto a se destacar nessa música é o vídeo clipe, ainda mais irônico que sua letra, já que enquanto o cantor fala em humildade, ele aparece envolto de um manto que lembra muito o utilizado pelo Papa, aparece deitado ao redor de muito dinheiro e aparece ao centro de uma mesa, reconstruindo a cena da A Última Ceia, famoso quadro de Leonardo DaVinci.

Em DUCKWORTH., última música do álbum, o rapper narra a história onde seu pai, conhecido como Ducky, conhece o criador de sua atual gravadora, Anthony "Top Dawg" Tiffith. Ao descrever os acontecimentos, Kendrick Lamar consegue mostrar toda sua força lírica e poética ao conectar a narrativa de Ducky e Top Dawg com a dura realidade dos jovens negros, não só nos Estados Unidos, mas em todo o mundo.

DAMN. é álbum urgente, que se coloca em um dos melhores da história do rap, um dos melhores dos últimos anos e atemporal que reforça o papel do negro na sociedade atual, papel que vem crescendo mas de maneira ainda injusta. Disco básico para qualquer amante de música, ou para aquele que quer entender um pouco do momento da nossa sociedade.





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22/09/2018

Talvez seu ídolo não seja como você espera

Foto: @rush Instagram

Há quase uma década sou um entusiasta do Rush. Entre vinis, CD's e DVD's colecionados, há um reconhecimento de minha parte pela contribuição da banda canadense não só para o rock, mas para a música. A admiração se estende a Neil Peart. O baterista não se restringe a banda, e também é autor de quatro obras literárias (O Ciclista Mascarado [1996], Ghost Rider - A Estrada da Cura [2002], Longe e Distante [2011], e Anjos do Tempo [2012], esse ficcional e mais a parte das experiências de Peart, e com colaboração de Kevin Anderson)

As composições de Neil Peart, devo confessar, coincidem com a minha visão de mundo e muitas das vezes são capazes de mudar o meu conceito ou aprimorá-lo sobre algo. Mas ser fã de um artista não deve significar estar 100% de acordo. Cronologicamente falando, ao lançar O Ciclista Mascarado, Neil retrata um período de férias do baterista em que ele conheceu a África (em especial Camarões) viajando de bicicleta. Tomando como um objetivo meu, conhecer a África tem um significado muito importante. É uma questão muito mais de conhecer uma cultura que foge completamente do que somos, e do que temos. Seria muito fácil viajar para a África para conhecer a beleza exótica do Safari, entre outras coisas. Porém ver a pobreza de perto requer uma preparação, sobretudo espiritual. Observar a simplicidade da maioria do povo e a humildade de muitos obviamente mudaria seu ponto de vista sobre as coisas, sobre o seu mundo, e como você se encaixa nele (alusão a Clockwork Angels).

Já em Ghost Rider, Neil detalha o período mais difícil de sua vida, ao perder em um curto intervalo a filha Selena, de 19 anos, e a esposa Jackie, em 1997. Um verso de Dreamline, canção lançada seis anos antes, se encaixa perfeitamente com o momento em que o baterista passava. Neil pegou sua moto e saiu sem rumo viajando pelos EUA e México ("We're only at home when we're on the run"). A atitude funcionou como uma catarse para Peart, que voltou a banda e cinco anos depois lançaram Vapor Trails.

E para fechar, em 2011 o baterista lançou Longe e Distante, último livro até o momento de cunho pessoal, onde detalha as aventuras de moto durante e entre as turnês do Rush, comentando sobre seus relacionamentos, em especial já com a segunda esposa Carrie, e sua filha .

Talvez não falte palavras para Peart somente nas letras do Rush e em seus livros, pois o baterista sempre foi reservado. No documentário lançado em 2010, Beyond The Lighted Stage, a timidez de Neil é mencionada, em especial por Tim Commerford, baixista que já passou por Rage Against The Machine, Audioslave e atual baixista do Prophets of Rage. Em um episódio, Tim conta até com certa dose de humor que um dia, como fã, foi vítima da indiferença de Neil. Mas o "novato" (como é chamado por Geddy Lee e Alex Lifeson, por ter entrado para a banda somente depois da saída de John Rutsey), revela que não age dessa forma por se sentir superior ou nada do tipo, mas sim por pura e simples timidez.

E então chego ao ponto que gostaria: talvez seu ídolo não seja exatamente como você espera, mas é justamente essa diferença muda sua visão, fazendo-o "descer do pedestal" e tornando tão humano quanto você. A vida, a personalidade e a visão de mundo de Neil Peart podem condizer com a minha ou não. Sua personalidade pode ser questionável. Mas, assim como qualquer ser humano, ele carrega uma história. O modo de agir e pensar só o tornam mais humano, apesar de ser sobrehumano quando com as baquetas (e com caneta e papel).


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03/09/2018

A obra-prima de Bob Dylan



No dia 30 de agosto de 1965, Bob Dylan lançou aquele que seria seu álbum mais importante, Highway 61 Revisited. Nele o músico mistura rock com blues, mudando a direção de sua carreira. O disco ainda traz a música que seria o seu maior sucesso, Like a Rolling Stone.

Dylan começou a apontar mudanças no disco Bringing it All Back Home, lançado em 22 de março de 1965. Foi nele que o artista trouxe pela primeira vez músicas com instrumentos elétricos. Mas em Highway 61 Revisted que essa transformação foi completada. É nesse álbum que Dylan rompe com o folk em nove músicas, todas com instrumentos elétricos, trazendo seu primeiro álbum totalmente de rock.

Abrindo com uma linha de bateria marcante e em segundos sendo controlada por piano, órgão e guitarra, temos Like a Rolling Stone, considerada a melhor música de todos os tempos em lista realizada pela Revista Rolling Stone em 2004. Em 6 minutos, Bob Dylan nos traz versos como, "você não deve deixar que outras pessoas levem seus pontapés por você" e "quando você não tem nada, você não tem nada para perder, você é invisível agora, você não tem segredos para esconder", evidenciando toda poesia contida em suas composições. A música também foi revolucionária ao ser lançada como single, já que as rádios costumavam tocar canções com média de 3 minutos.

A segunda música, Tombstone Blues, é um rock de garagem com influências do blues e traz, novamente, ótimas linhas de bateria. It Takes a Lot to Laught, It Takes a Train to Cry é uma balada blues, que quebra o ritmo mais rock do álbum, com solos de gaita que se encaixam perfeitamente com a melodia. Mas essa calmaria acaba com, From a Buick 6, outro rock de garagem com blues.

Encerrando a primeira parte do álbum com a música Ballad of A Thin Man, Bob Dylan entoa seu piano como elemento principal, misturando com órgão, guitarra, baixo e bateria, criando um clima tenso e nos entrega uma das melhores músicas do disco. O músico questiona o Sr. Jones, que parece não saber onde está ou quem é, trazendo mais um exemplo de suas belas composições como no trecho, "Você esteve com professores, e todos eles gostaram de sua aparência, com grandes advogados você tem leprosos e ladrões discutidos, você passou através de todos os livros de F. Scott Fitzgerald, você é bem letrado, já se sabe bem, mas algo está acontecendo aqui e você não sabe o que é, sabe, Sr. Jones?".

O lado B é aberto com Queen Jane Approximately, música muito semelhante à Like a Rolling Stone, porém mais lenta. A sétima música é a que carrega o título do álbum, mistura elementos do rock, blues e folk. O nome é em homenagem à Highway 61, estrada que ligava Duluth, Minessota, cidade onde Bob Dylan cresceu, até New Orleans, Louisiana. Na música, o compositor apresenta diversos problemas e todos são solucionados na Estrada 61. "Oh, Deus disse à Abraão "Mate-me um filho", Abraão diz "Cara, você deve estar de sacanagem comigo", Deus diz "Não", Abraão diz "O quê?" Deus diz "Você pode fazer o que quiser Abraão, mas, Na próxima vez que você me ver vindo é melhor correr", Bem, Abraão disse "Onde você quer esta morte feita?", Deus diz, "Lá na Estrada 61.".

Com um piano envolvente e calmo, Just Like Thumb’s Blues é uma balada rock, com um dos melhores vocais de Bob Dylan. Essa música mostra outra característica marcante nas composições de Bob Dylan, a do trovador. Na música ele narra a história de um viajante perdido em Juárez, México, onde ele encontra prostitutas, álcool, drogas, corrupção e decide retornar a Nova Iorque, em mais uma daquelas letras que expõe a brilhante poesia contida nos versos de Bob Dylan. Para fechar o álbum, foi escolhida a música menos rock, uma composição com sua essência folk, mas que quebra com o gênero por ter 11 minutos, duração inaceitável para uma canção do estilo.


Em 2005, Highway 61 Revisited, foi considerado como o quarto melhor álbum de todos os tempos em lista feita pela Revista Rolling Stone e está na oitava colocação em lista com os 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame. Bob Dylan entrega uma obra-prima que influenciou toda sua geração, o colocou entre os maiores nomes da história da música e revolucionou a indústria, começando pelo próprio cantor.



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12/08/2018

"Lost & Found": Jorja Smith exala amor e desilusão em seu debut

 

Em 2016, a cantora Jorja Smith lançou o EP "Project 11", e no mesmo ano participou do disco "More Life" do rapper canadense Drake, na faixa de ritmo dançante e africano "Get It Together". Inclusive a cantora saiu em turnê com o rapper. Se naquele ano a cantora britânica se mostrava uma promessa, já em 2018, Jorja se mostrou realizada ao participar da trilha do filme "Pantera Negra", com a ótima canção "I Am", de curadoria de Kendrick Lamar.

Agora em junho, Jorja nos brindou com o excelente "Lost & Found", disco que é puro R&B e que mostra a voz da britânica como um show à parte.

Jorja se mostra tão à vontade que parece ter anos de carreira, e até nos esquecemos que se trata de um debut. Nesse sentido não há exemplo maior que "Teenage Fantasy”, canção sobre uma desilusão amorosa que deve se tratar de experiências da própria cantora em sua juventude ainda recente – vale lembrar que a britânica possui somente 21 anos. No final da canção, Jorja ri e sussurra algumas palavras, mostrando-se plena diante do que fez e do que é capaz.

A tônica do álbum quanto às letras pode ser resumida entre dar e receber, “se perder e se achar”, cair e levantar, e assim por diante. A serenidade e doçura ao cantar “February 3rd” mostra isso. O piano de introdução em “On Your Own” dá espaço para uma bateria e uma Jorja que mais parece uma nova Rihanna, mas com um sotaque britânico, que faria até a princesa de Barbados querer interpretá-la.
“The One” é um contraponto ao álbum, que em quase todos os momentos não conta com muitos elementos acrescentados aos arranjos, deixando assim, todos os holofotes na voz da cantora. A canção contém uma orquestração que caminha em paralelo com Jorja, onde se interdependem, o que torna a faixa muito acima da média.

Mas nada nesse registro se compara a “Blue Lights”. Jorja toca na ferida. A questão racial é retratada, o medo pela injustiça é escancarado, e enquanto a cor da pele for passível de julgamento, então a segregação racial continuará existindo. Já os falsetes em “Goodbyes” e, principalmente, “Tomorrow”, revelam a versatilidade de Jorja, capaz de cantar das mais variadas formas e em diversos ritmos.
E para fechar, a balada ao piano, “Don’t Watch Me Cry”, lembra Adele em seus melhores momentos na carreira.

Em suma, são inevitáveis as comparações e referências diante da doçura no timbre de Jorja: Lauryn Hill, Amy Winehouse e outras grandes vozes femininas das duas últimas décadas ficariam orgulhosas.

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21/07/2018

Um ano sem Chester Bennington

Há exato um ano perdíamos a inigualável voz de Chester Bennington, do Linkin Park, para a depressão. Isso se torna mais sombrio ao se lembrar que o suicídio se deu por enforcamento e na data de aniversário de seu amigo, Chris Cornell, que também se suicidou por enforcamento em maio de 2017.



Não é exagero dizer que o Linkin Park foi uma banda que marcou toda uma geração. Conheci a banda - tardiamente, diga-se - através de uma novela global, em 2003. Naquela época, conhecer uma banda de reconhecimento mundial já poderia ocorrer de N maneiras, mas eu, ainda com 10 anos, conheci o som da grande banda de Nu Metal daquele momento em uma novela (!!!), algo completamente inimaginável em 2018, ainda mais com o advento do streaming e a baixa exposição do rock na TV. Durante uma cena de perseguição de carro, surge o arranjo de "Faint". Nada poderia me prender mais que aquilo.

Quinze anos se passaram. Muita coisa mudou. O Linkin Park mudou - felizmente. O debut Hybrid Theory [2000], Meteora [2003] e a energia do Live In Texas [2003] são a época de ouro, enquanto Minutes to Midnight [2007] foi a ponte para as mudanças sonoras que ocorreram com A Thousand Suns [2010] - o mais experimental da discografia, e Living Things [2012] - o mais eletrônico. Se a sonoridade mudou da água pro vinho, as letras sempre revelaram um Chester que vivia numa batalha interna desde o início da carreira. "Numb", o maior sucesso da banda, se trata de uma rejeição e isolamento explícitos. "Breaking The Habit" retrata a luta crescente contra a dependência química, enquanto "From The Inside" descreve o total desprezo de si.

Apesar de sempre notável, a luta diária de Chester se tornou mais evidente quando "One More Light", lançado em maio de 2017, trazia canções como Heavy ("I don't like my mind right now / Stacking up problems that are so unnecessary / Wish that I could slow things down / I wanna let go, but there's comfort in panic"), Nobody Can Save Me Now ("You tell me it’s alright / Tell me I’m forgiven / Tonight / But nobody can save me now) e Battle Symphony ("Blood on the floor / Sirens repeat / I've been searching for the courage / To face my enemies). Não importa se no dia a dia o vocalista parecia bem. Fato é que o pedido de ajuda sempre esteve nas entrelinhas.

Em suma, Chester passou cerca de duas décadas enfrentando seus demônios. Seu sofrimento foi o combustível para o sucesso do Linkin Park, e mesmo usando a música como refúgio de seus problemas, isso não foi suficiente para vencer a doença que tem feito tantos outros músicos vítima.

Mas a esperança de superação quem permanece por aqui continua a existir. No mês passado, Mike Shinoda, seu companheiro de quase duas décadas de grupo, lançou seu primeiro disco solo, apropriadamente intitulado Post Traumatic. Nele, Shinoda exala seu abatimento e simultaneamente mostra sinais de superação diante da grande perda do ano passado.

O ex-companheiro de banda Dave Farrell homenageou Chester:

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"Who cares if one more light goes out? Well, I do."
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30/03/2018

A libertação de Teco Martins com "Solar"

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Lá se vão sete anos desde o último disco do Rancore, o aclamado "Seiva", e quatro anos desde o anúncio de hiato da banda. Se as suas lembranças são os vocais cortantes de Teco Martins e a energia em cada palavra vociferada, elas podem servir de contraste com tudo o que "Solar", seu novo disco solo, representa.

Fato é que Teco nunca pareceu tão à vontade em sua carreira como agora. "Solar" é a representação da libertação. Uma espécie de catarse. Com uma sonoridade que remete a brasilidade em transição dos anos 60 para 70, de nomes como Novos Baianos e Os Mutantes, Teco é capaz de adicionar os mais variados elementos, como um dueto em "Células", faixa que abre o disco, além de pandeiros e triângulo; A simplicidade em "Lèlövéy", seu contraste na velocidade dos acordes do violão e na linha de baixo rápida; A purificação notória em canções como "Sal Grosso" ("Sal grosso / Que vem do mar / Que vem do sol / Que secou minhas lágrimas") sintetiza o espírito de Teco, tornando o álbum uma experiência sensorial de cerca de 45 minutos.

O candomblé também tem forte influência no disco, com "axé", que significa "energia" ou "poder", presente em canções como "Verão e Melancia" e "Adorei", essa última cheia de percussão típica da religião. "Amoreiras-Ipê" é, por sua vez, carregada de percussão, instrumentos de sopro e astrologia, trazendo a tona a essência do que é "Solar" ("Só reencontra a primavera quem sobrevive ao inverno").

"Música Para o Amor da Minha Vida" denota a plenitude de Teco por ter seu porto seguro, enquanto "Aos Pés do Cajueiro" pode ser facilmente confundida com uma música de algum artista nordestino por conta do timbre vocal de Teco. A diversidade nos elementos parecem também ter influências rebuscadas de George Harrison, em sua época de descobertas espirituais ainda nos Beatles.

Em suma, "Solar" é um convite ao expurgo a partir da natureza, mas não sem se deixar enaltecer tudo que ela nos fornece. As estações são metáfora para a transição espiritual, e o sol, portanto, é a ferramenta essencial para isso.

Que a evolução espiritual do Teco nos proporcione mais discos como "Solar"!


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