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27/09/2015

Resenha | David Gilmour - Rattle That Lock [2015]


David Gilmour está de volta! "Rattle That Lock" vem algum tempo depois do lançamento do provável último disco do Pink Floyd, "The Endless River". O que vemos é que a fonte de Gilmour está muito longe de secar. O lirismo em suas canções continua o mesmo. Suas composições ainda contêm o mesmo feeling de décadas atrás. Gilmour se mostra completamente livre do "fantasma" do Floyd, consegue dar seu toque no álbum de forma a se desvincular da sonoridade do grupo, ainda que se pareça em partes com "Division Bell". A capa e o título, de fato transmitem a ideia de que o vocalista mostrou satisfação por sua despedida do Floyd, e que agora tem a liberdade para focar em sua carreira solo,

Quando se começa a ouvir "5 a.m.", pode-se cravar que se está ouvindo uma nova versão de "Shine On You Crazy Diamond", numa crescente de notas, diante das notas dispersas de guitarra e do teclado ao fundo. A faixa-título é, de longe, o carro-chefe do disco. A linha de baixo é simplesmente arrebatadora, traz o swing necessário e até inesperado diante da melodia famigerada de David. As participações de Phil Manzanera no órgão Hammond preenchendo as lacunas, e de The Liberty Choir no refrão, são a cereja do bolo. Sem falar no clipe divulgado (final do post). No clipe, a inspiração de "Paradise Lost", obra literária de John Milton. Vale conferir também o francês tímido de Gilmour no meio da canção.

"Faces of Stone" parece que tem sua intro no violão sugada da primeira fase de Bob Dylan, de algo do "The Freewheelin'..." ou de "The Times They Are A-Changin'", e é sustentada por uma orquestração ímpar, diante das participações de Eira Owen na trompa e Zbigniew Preisner na orquestração. "A Boat Lies Waiting" tem início com seus slides de guitarra emendados no piano de Gilmour, mas a canção tem, no papel, um peso absurdo, pelo fato de contar com um sample de voz de Richard Wright, além de 50% do Crosby, Stills, Nash & Young, já que conta com Graham Nash e David Crosby nos backing vocals.

A união do riff cortante e da orquestração em "Dancing Right In Front of Me" a torna um dos destaques, sem falar da brusca mudança de compasso, sendo rock e ao mesmo tempo jazz. Imediatamente você se pega ouvindo "Englishman In New York" do Sting. "In Any Tongue" tem, em resumo, sua intro com a mesma angústia de "Comfortably Numb", e um solo tão grandioso quanto a esse clássico progressivo.

"Beauty", faixa instrumental, poderia muito bem ser incluída em "Animals", devido a enorme semelhança que tem em seu instrumental com o disco setentista do Floyd. "The Girl in The Yellow Dress" é a faixa com os dois pés no jazz, com o piano de Jools Holland e a corneta de Robert Wyatt como grande destaque. "Today", que ganhou um clipe (também no final do post), assim como "Rattle That Lock", conta com Polly Samson, esposa de Gilmour, nos backing vocals. A canção se destaca pela harmonia entre percussão e orquestração.

Para fechar, mais uma instrumental. "And Then..." é mais uma das dezenas de canções que Gilmour consegue compor com extrema competência, mesmo sem acrescentar uma letra, e despejar todo seu feeling. A canção conta com influências espanholas no trecho final.

Em resumo, Gilmour por vezes parecia Mark Knopfler em "Brothers In Arms", por vezes lembrava sua era de ouro no Floyd, seja no período 1975-79 ou "Division Bell". Não importa por qual ponto de vista você queira avaliar o disco, a apreciação será garantida.

Tracklist

  1. 5 a.m.
  2. Rattle That Lock
  3. Faces of Stone
  4. A Boat Lies Waiting
  5. Dancing Right In Front of Me
  6. In Any Tongue
  7. Beauty
  8. The Girl In The Yellow Dress
  9. Today
  10. And Then
Produção: David Gilmour / Phil Manzanera
Engenheiro de Som: Andy Jackson / Damon Iddins




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26/09/2015

Resenha | What Happened, Miss Simone? [2015]



Nina Simone, ou Eunice Waymon, foi uma mulher de vários feitos. Mesmo sob questões adversas, foi capaz de buscar forças e alcançar seus objetivos. No documentário produzido pela própria filha, Lisa Simone, e lançado recentemente pelo Netflix, "What Happened, Miss Simone?" é um retrato de todo suor da cantora, que sofreu com a pobreza, com o racismo de sua época, entre outras coisas.

Nina teve uma carreira de altos e baixos, mas antes, com muita dedicação e sem recursos, se tornou a primeira pianista clássica negra, alcançou as paradas com sua poderosa voz quase de barítono, sempre enfática em suas letras, retratando a pobreza, o racismo e a desigualdade social. além de ter uma bagagem ótima de música clássica. Muitas dessas letras enfáticas custaram caro para sua carreira posteriormente, diante da clara censura que sempre sofria.

Muito além do âmbito musical, Simone ilustra o cenário da época completamente difícil que vivia e do ambiente que a circundava, e surpreendentemente, demonstra certa inocência do que ocorreu em todo o século XX e ainda ocorre onde quer que vá: a segregação racial. Além disso, o que sobrava de talento também sobrava de temperamento. Sua relação conjugal era cheia de extremos. O fato de ser ativista dos direitos civis também prejudicou sua carreira, o que nunca a abalou. Seu relacionamento próximo com Malcolm X é citado, além do choque com a morte de Martin Luther King.

Mas nada disso foi capaz de estremecer os desejos de Nina. Sempre idiossincrática, ela sabia lidar com a situação e quebrava paradigmas sem obter cicatrizes. Tinha problemas familiares, posteriormente ficou debilitada em seu período crítico na carreira, mas pelo que sempre representou, contou com amigos capazes de se tornar verdadeiros pilares.

A força de Nina Simone é algo tão magnífico e inexplicável que, como se fosse possível, Nina lutaria pelos direitos civis quantas vidas fosse necessário, para poder tornar os EUA - e o que mais fosse possível - um lugar justo. Podemos dizer em absoluto que a Nina ativista tem um legado tão grandioso quanto a Nina cantora e compositora.


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