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28/06/2015

Resenha | Neil Young + Promise The Real - The Monsanto Years [2015]


Se há alguém na música em que se pode fazer uma metáfora com vinho, esse alguém é Neil Young. O lendário músico canadense, que neste ano completa 70 anos, lançou nesse último mês seu 36º álbum de estúdio, intitulado "The Monsanto Years", em parceria com o Promise The Real, banda que conta com dois dos filhos da lenda do country Willie Nelson. Provando que ainda há muita lenha para queimar, Neil fez do disco mais um álbum conceitual, dessa vez em protesto à multinacional Monsanto, uma das maiores no ramo agrícola. Mas não somente se trata da Monsanto o álbum.

"A New Day for Love" é uma grande faixa de abertura, e demonstra-se inconfundível diante da voz de Young e de um riff lento, mas que se encaixa perfeitamente. A canção é um chamado em defesa dos oprimidos, que vivem sob suas terras ameaçadas por grandes corporações. Totalmente acústica, "Wolf Moon" traz uma voz mais cansada de Young, - o que por vezes se torna inevitável diante de sua idade - além de ser a faixa mais curta do disco. O álbum tem uma grande elevação novamente com "People Want To Hear About Love", mais um riff executado com excelência com uma letra completamente direta que, se interpretada por completo, pode-se notar que vai na contramão do que diz a clássica "All You Need Is Love", dos Beatles. Young ironiza, ao sempre expor que as pessoas só se importam com o amor, como se fosse ele a solução de tudo, e que se isso for feito, vários âmbitos sempre serão deixados de lado.

"Big Box" é mais um dos protestos veementes, uma acusação aos quatro cantos do globo do egoísmo corporativo que assola a Terra. Um dos acusados é a rede de hipermercados Walmart, e, mais uma vez, Neil ironiza, ao dizer "Corporations have feelings, corporations have soul [...] Too big to fail, too rich for jail" ["Corporações têm sentimentos, corporações têm alma [...] Grandes demais para falhar, ricos demais para serem pegos"]. A faixa também se torna a mais longa do disco, contendo pouco mais de oito minutos.

"Rock Star Bucks A Coffee Shop": De uma vez só, e em cinco minutos, o canadense detona duas das maiores marcas mundiais: a rede de café Starbucks e, novamente, a Monsanto, numa tentativa de boicotá-la. Como um tapa na cara para os CEO's das duas marcas, ele diz: "Mothers want to know what they feed their children" ["As mães querem saber como eles alimentam seus filhos"], utilizando de um pensamento simples que poderia, de alguma forma, conscientizar os fiéis clientes de ambos.

"Workin' Man" tem uma ótima linha de baixo, que se remete ao ritmo cinquentista, em músicas como as de Johnny Cash em seu começo de carreira, mas não deixando de lembrar de Bob Dylan em "Highway 61 Revisited". Como não poderia deixar de ser, há mais uma acusação caindo sobre a Monsanto, dessa vez com Neil contestando o fato de a Supreme Corte ter aprovado uma lei que favorecia a multinacional. Diferentemente de "Workin'...", "Rules of Change" é mais cadenciada, como num pedido leve do músico, ao dizer "Seeds are life it can't be owned [...] Life cannot be owned" ["Sementes são vida, não podem ser dominadas [...] A vida não pode ser dominada"].

Na faixa-título a crítica se estende ao fato de a Monsanto destruir a vida. Um dos pontos é o uso de venenos. "Monsanto..." se desenrola até entrar em uma parte final com um riff bastante decente.
A última faixa, "If I Don't Know", é a mais chorosa do álbum, se arrastando e brandando por trazer de volta tudo aquilo que sempre foi nosso, tudo que sempre foi dos cidadãos.

Não é a primeira e provavelmente não será a última vez que Neil Young usará de protesto em suas canções, o que sempre foi um marco na sua carreira. Mas talvez esse seja o protesto mais veemente que já se viu do artista. Algo admirável, bem fundamentado e esclarecido, com potencial para se tornar um clássico em não muito tempo.


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26/06/2015

Resenha | James Taylor - Before This World [2015]


Foi uma longa espera. 47 anos até que um álbum de James Taylor, agora com 67 anos, conseguisse o #1 da Billboard. "Before This World", lançado no último dia 15, é o que se espera do veterano. "Before..." é soft rock, marca registrada da carreira do cantor americano, mas por vezes também country. É o primeiro disco de inéditas em 13 anos.

"Today Today Today" é vagarosa e conta com um conjunto de cordas que agrega muito, além, é claro, da gaita. O violoncelo é parte essencial para dar o tom em "You and I Again", além do eufônio e clisforne. "Angels of Fenway" é sustentada pela voz de Taylor ainda caindo nas graças do público, e tem apoio de Caroline Taylor. "Stretch of The Highway", é, talvez, a canção mais doce do disco. Grande parte desse status se deve à introdução dos metais, com um sax vigoroso e pontual, que faz um belo conjunto com as cordas. Lenta em sua estrutura, "Montana", sem nenhum destaque instrumental, se mostra um tanto aquém da média de nível que o álbum apresenta.

Já no segundo lado do disco, "Watchin' Over Me" é animada, e demonstra um dinâmica interessante aliada à harmonia vocal. O jogo de palavras faz "Snowtime" soar ótima, numa crescente fazendo novamente a harmonia vocal ganhar destaque. A faixa-título, junto com "Jolly Springtime" conta com uma harmonia entre violoncelo e violão impecável. "Far Afghanistan", como o próprio nome indica, é uma canção de protesto. É direta em sua mensagem. Sem rodeios, Taylor conta os efeitos da guerra e o quanto os EUA ainda não aprenderam a lição. O 9/11 é citado, além o de o cantor dizer: "Eu estava pronto para ser aterrorizado e pronto para ficar louco." Pra fechar, vem "Wild Mountain Thyme", usando da natureza como metáfora, fazendo um paralelo com o amor.

Ouça o álbum completo:

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19/06/2015

Dire Straits: Quando "Sultans of Swing" não era um hit

Matéria traduzida da UDiscover Music

Sendo parte da história do rock, agora é estranho pensar que “Sultans of Swing” não entrou nas paradas mesmo quando foi pela primeira vez lançada há 37 anos pelo Dire Straits, em 19/05/1978.

A composição de Mark Knopfler era, de alguma forma, parte da curva ascendente da banda naquele ano. Eles foram apoiados pela BBC Radio London, notavelmente no show para rádio do escritor e locutor Charlie Gillett, e foram rapidamente ganhando reputação como uma das bandas mais quentes no palco – quase vivendo fora da vida da banda funky descrita na letra da música.

“Sultans...” não somente continua a tocar nas rádios, TV, propagandas de varejo e muitos outros lugares nos dias de hoje, mas teve influência no novo álbum solo de Knopfler, “Tracker”, especialmente na canção “Beryl”. ‘Eu acho que há um aceno claro ao antigo Straits’, diz Knopfler.  ‘Aquilo era algo deliberado, indo à um período porque parecia vestir a canção. Eu tirei uma parte de “Sultans of Swing” por essa razão, porque alguma coisa você associaria àquela época.”

Knopfler também lembra os dias passados de suor e trabalho quando o Dire Straits realmente estava fazendo o papel descrito em “Sultans of Swing”. ‘Você apenas ia de show em show esperando manter todos juntos,’ ele diz, ‘e esperando entrar na turnê, na qual nós gerenciávamos para fazer. Você só leva a partir daí.’


No mês que o single foi lançado no Reino Unido (a primeira vez), os Straits entraram em turnê com o Climax Blues Band, e fizeram shows europeus abrindo para o Styx. Em junho, eles tocaram seu primeiro show na turnê britânica como headliners, mas “Sultans...” não se tornou um hit até o novo ano de ’79, quando a banda entrou nas paradas norte-americanas com seu debut auto-intitulado e depois o single, o qual alcançou o #4. De volta ao Reino Unido, alcançaram o #8, e eles estavam bem e verdadeiramente em seu caminho.

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18/06/2015

Joias do Youtube #10: Chico Science e Nação Zumbi @ Central Park


De Pernambuco para o mundo!!! Há exatos 20 anos, Chico Science liderava a Nação Zumbi, com participação especial de Gilberto Gil, numa apresentação épica no Central Park, em Nova York. Até aí, um grupo brasileiro tocar no exterior não é nenhuma novidade. Os Mutantes, por exemplo, fizeram muito sucesso lá fora. Raul Seixas também era visto com bons olhos na gringa. Mas a questão é mais profunda: o som pelo qual a Nação ficou famosa não é como a Bossa Nova de João Gilberto, Tom Jobim e outros. O manguebeat sempre foi regional. Não chegou a fazer com que surgissem grupos de alto escalão do gênero em outras regiões Brasil afora. Mas Chico Science foi capaz de unir o Maracatu ao Rock, conquistar o Brasil nos anos 90 e exportar sua sonoridade autêntica aos EUA.

Foi o primeiro show do grupo no exterior, em abertura para o próprio Gilberto Gil. Eles vieram a tocar em outros locais lendários, como CBGB, além de outros bares conhecidos dos EUA. A atual formação da Nação tocará no mesmo local, em homenagem aos 20 anos desse marco.

Essa é uma conquista não somente de Science e da Nação Zumbi, mas da música brasileira.

No vídeo abaixo, você pode conferir a apresentação, bem como entrevistas do Gil, o músico Arto Lindsey, Fred 04, além do próprio Chico.

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16/06/2015

Resenha | Faith No More - Sol Invictus [2015]


Dezoito anos de espera. DEZOITO! A expectativa não poderia ser mais alta. Muito aconteceu com todos os integrantes do Faith No More. Mike Bordin trabalhou com Ozzy Osbourne; Roddy Buttom entrou em vários projetos; Billy Gould idem; Mike Patton trabalhou com o Fantômas, Tomahawk e outros. Mas juntos eles são capazes de algo realmente grandioso. Todos sabemos disso. E a espera valeu. O FNM trouxe à tona a sintonia que sempre tiveram.

"Sol Invictus", nome em latim para "Sol não-conquistado", mostra o eterno lado experimental da banda dessa vez unido com o clima soturno. E isso já fica evidente na faixa-título, primeira do disco, totalmente ritmada. "Superhero", divulgada antes do lançamento, foi uma escolha perfeita para single, tendo papel fundamental de Billy Gould, com uma linha de baixo vistosa, e tornando a canção, ao lado dos teclados de Buttom, completamente urgente; a letra retrata o poder em mãos erradas na sociedade e a megalomania. "Sunny Side Up" conta com uma vocal cortante de Patton, além de total sintonia entre ele e o riff e Jon Hudson.

"Separation Anxiety" é pouco inspiradora, e, em sua essência, bem executada por Billy. A letra é bem fundamentada, evidenciando a dificuldade de lidar com a crescente violência e de outros males, com a angústia como uma entidade, causando trauma. "Cone of Shame" é lenta, mas ascendente, e põe em questão as falsas aparências. Pode-se notar nela uma influência de horror punk na narrativa de Patton. "Rise of The Fall" soa um tanto dançante, com uma linha simples de bateria de Mike Bordin. "Black Friday" expõe o consumismo exacerbado e a ilusão, como o próprio nome diz [a liquidação americana pós-Dia de ação de graças, que nos últimos anos tem sido feita também no Brasil]. A canção conta com violões desembocando no peso das guitarras no refrão.

"Motherfucker", outra que virou single e foi divulgada antes do lançamento do CD, teve sua letra composta com maestria, cheia de metáforas, mostrando um cenário de uma sociedade indefesa. "Matador", a faixa mais longa do álbum, tem um Mike Patton inspirado no doom em alguns momentos, mais precisamente Candlemass em "Samarithan". "From The Dead" é ritmada como "Black Friday" e tem contribuição do violão, mas não progride como na outra faixa.

O retorno do FNM não poderia ser melhor. "Sol Invictus" é diferente sem deixar de ser Faith No More, tendo os pés no chão.

Tracklist:
  1. Sol Invictus
  2. Superhero
  3. Sunny Side Up
  4. Separation Anxiety
  5. Cone of Shame
  6. Rise of The Fall
  7. Black Friday
  8. Motherfucker
  9. Matador
  10. From The Dead


Membros
Mike Bordin - Bateria
Roddy Buttom - Teclados e Vocais
Mike Patton - Vocais
Billy Gould - Baixo
Jon Hudson - Guitarra

Produção
Billy Gould - Produtor e Engenheiro de Gravação
Matt Wallace - Engenheiro de Mixagem
Maor Appelbaum - Engenheiro de Masterização

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15/06/2015

Resenha | Muse - Drones [2015]


O Muse volta às paradas e lança o sucessor de "The 2nd Law", de 2012. "Drones" já havia ganhado forma há algum tempo, diante das tantas músicas divulgadas antes de seu lançamento, na última semana. Produzido por ninguém menos que Robert "Mutt" Lange, responsável por "Highway to Hell" e "Back In Black", do AC/DC, além de nomes como Def Leppard, Shania Twain e Nickelback, o disco conta com uma mudança moderada de som com relação ao seu antecessor. "The 2nd Law" soa completamente pop de forma experimental, sendo que em "Drones" a guitarra de Bellamy é mais evidente em alguns pontos do álbum.

Apesar de musicalmente comercial, o disco tem seu viés politizado. "Dead Inside", divulgada anteriormente, conta com uma batida pop que em seu fim se acelera e ganha melhor forma, além de contar com um riff de guitarra curto. A letra fala sobre a vida de aparências que vivemos. "Drill Sergeant", um discurso de sargento, vem como um interlúdio para "Psycho", uma das melhores faixas do disco, retratando a lobotomia e o desejo de controle que a humanidade demonstra, um ao outro, como se você se tornasse uma marionete - não poderia ser mais atual que isso.

Os sintetizadores permeiam "Mercy", uma verdadeira chamada para o que assola o planeta atualmente, e os recursos eletrônicos nela são muito bem utilizados. "Reapers" tem um início à la "Eruption" do Van Halen, porém mais eletrônico, a guitarra se torna evidente e com um riff bem linkado, porém a voz de Bellamy com os efeitos acaba por tirar o apreço que a música poderia causar. "The Handler" vem com, talvez, o riff mais consistente de guitarra. A seguir, mais um interlúdio, o discurso de John Kennedy em "JFK" dando abertura à "Defector", com uma referência clara ao Queen no que diz respeito à harmônia vocal, fazendo alusão à lendária "Bohemian Rhapsody".

"Revolt" é, de fato, uma das canções mais diretas do álbum. Em seus quatro minutos há pouco experimentalismo, e um riff em conjunto com o vocal de Bellamy sóbrio. Cadenciada e mergulhada nos sintetizadores diante de um dedilhado na guitarra, "Aftermath" se mostra eficiente sem muito alarde. "The Globalist" mostra a eterna influência que o grupo tem dos anos 70, especialmente Rush. Épica, a canção começa com um clima western e em ritmo crescente até explodir no meio da faixa e voltar a diminuir o ritmo lentamente. O disco se encerra com a faixa-título, ao estilo música sacra, um lado que até hoje o Muse não havia mostrado.


Tracklist:
  1. Dead Inside
  2. [Drill Sergeant]
  3. Psycho
  4. Mercy
  5. Reapers
  6. The Handler
  7. [JFK]
  8. Defector
  9. Revolt
  10. Aftermath
  11. The Globalist
  12. Drones


Membros
Matthew Bellamy - guitarra, vocais, piano e sintetizadores
Critsopher Wolstenholme - baixo e vocais
Dominic Howard - bateria

Produção
Robert John "Mutt" Lange - Produtor
Tommaso Colliva - Engenheiro de Gravação
Rich Costey - Engenheiro de Mixagem
Giovanni Versari - Engenheiro de Masterização (exceto faixa 1)
Bob Ludwig - Engenheiro de Masterização (faixa 1)
Matt Mahurin - Arte do álbum; Ilustrações das músicas

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14/06/2015

Covers #30: Pink Floyd vs Shadows Fall


Incorporar o som de uma banda do nível do Pink Floyd não é fácil. Musicalmente falando, a essência progressiva do Floyd é difícil de ser encarnada. Especialmente se for uma banda de metal. O Shadows nasceu em 1995, mas ainda no começo resolveu incluir um cover de "Welcome to The Machine", do clássico "Wish You Were Here" do Floyd. A versão cover faz parte do disco The Art of Balance", de 2002. Um tanto quanto cauteloso, o Shadows Fall resolveu ser fiel ao original, mantendo os vocais e acrescentando um arranjo e um riff de guitarra. Até os sintetizadores foram mantidos. Ainda assim, a banda confessou que a música foi "ilhada" diante do segmento que o álbum em si representava, fazendo com que a mesma ficasse sem a devida visibilidade. Uma decisão que claramente pode não agradar nem o lado prog nem o lado metal. Confira você mesmo e nos diga o que achou:


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12/06/2015

Os 50 álbuns que (quase) tiveram surpreendentes nomes (Parte 4)



4ª e última parte da nossa matéria. Confira também as outras partes:

1ª parte
2ª parte
3ª parte

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10/06/2015

06/06/2015

Os 50 álbuns que (quase) tiveram surpreendentes nomes (Parte 1)

Matéria traduzida da NME


Uns intrigantes. Outros até melhores que o que foi escolhido. Forme sua opinião conosco!

Confira a série completa:
2ª parte
3ª parte
4ª parte




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