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19/12/2013

Você Sabia? #23: A história por trás de "Spanish Bombs", do Clash

Fonte: História é a Vida

Em 18 de julho de 1936, as tropas do general Francisco Franco saíram do Marrocos para dar um golpe no governo democraticamente eleito na Espanha, dando início a uma sangrenta guerra civil.
No início do século XX, a Espanha era um país miserável, governado por uma monarquia que se apoiava no Exército e na Igreja, com uma economia predominantemente rural e uma burguesia incipiente e fraca. A única região em vias de industrialização era a Catalunha.

Nessa altura, diversos movimentos políticos populares se manifestavam contra esta situação. Para reprimi-los o rei empossara Primo de Rivera como ditador do país. Ele permaneceu no cargo até 1931, quando foi destituído do poder junto com a Coroa. Instaura-se uma República, com uma das constituições mais democráticas da época.

Em 1936, ocorreu a vitória da Frente Popular nas eleições parlamentares, formada por socialistas, comunistas e setores da burguesia democrática. Contudo, os setores conservadores da Igreja e do Exército, unidos a grupos de inspiração fascista, os falangistas, e diversos setores da direita derrubaram o novo governo.

Os republicanos reagiram a essa violência contra a democracia. Anarquistas, socialistas, comunistas e setores da burguesia democrática se voltaram contra os golpistas, que se autodenominavam nacionalistas. Estes ainda contaram com o apoio militar de Portugal, da Alemanha nazista e da Itália fascista.
A URSS organizou as Brigadas Internacionais, voluntários de diversos Partidos Comunistas no mundo para lutar contra os fascistas na Espanha. Na verdade, antes disso, voluntários estrangeiros já lutavam em prol da República, em milícias independente do controle dos PCs. Cerca de 40 mil jovens voluntários de fora do país estiveram presentes no confronto. Cabe destacar que eles estavam lá para lutar por uma causa e não por um território ou por dinheiro.


 Uma música que resume bem o que foi a Guerra Civil Espanhola e "Spanish Bombs" da banda de rock britânica The Clash. Eles sempre foram uma banda preocupada com questões sociais e políticas. Seguindo uma linha punk, tem grandes sucessos como "Should I Stay or Should I Go", "Rock the Casbah" e "London Calling". A que destaco trata da Guerra Civil Espanhola e merece uma boa análise.

Veja a tradução no vídeo abaixo, que conta com imagens do conflito.


Spanish songs in Andalucia
The shooting sites in the days of '39
Oh, please, leave the ventana open
Federico Lorca is dead and gone
Bullet holes in the cemetery walls
The black cars of the Guardia Civil
Spanish bombs on the Costa Rica
I'm flying in a DC-10 tonight

Spanish bombs, yo te quiero y finito
Yo te guerda, oh mi corazon
Spanish bombs, yo te quiero y finito
Yo te guerda, oh mi corazon

Spanish weeks in my disco casino
The freedom fighters died upon the hill
They sang the red flag
They wore the black one
But after they died it was Mockingbird Hill
Back home the buses went up in flashes
The Irish tomb was drenched in blood
Spanish bombs shatter the hotels
My senorita's rose was nipped in the bud

Spanish bombs, yo te quiero y finito
Yo te guerda, oh mi corazon
Spanish bombs, yo te quiero y finito
Yo te guerda, oh mi corazon

The hillsides ring with "Free the people"
Or can I hear the echo from the days of '39?
With trenches full of poets
The ragged army, fixin' bayonets to fight the other line
Spanish bombs rock the province
I'm hearing music from another time
Spanish bombs on the Costa Brava
I'm flying in on a DC-10 tonight

Spanish bombs, yo te quiero y finito
Yo te guerda, oh mi corazon
Spanish bombs, yo te quiero y finito
yo te guerda , oh mi corazon
Oh, mi corazon
Oh, mi corazon

Spanish songs in Andalucia, Mandolina
Oh mi corazon
Spanish songs in Granada
Oh mi corazon
Oh mi corazon
Oh mi corazon
Oh mi Corazon

Vamos prestar atenção em alguns elementos dessa canção que remetem à história da Guerra Civil Espanhola:


  • Spanish songs in Andalucia/ The shooting sites in the days of '39 – A Andaluzia era uma das províncias mais pobres e rurais da Espanha. A Guerra Civil foi justamente até 1939.

  • Federico Lorca is dead and gone – Federico Garcia Lorca era um poeta espanhol, manifestadamente antifascista, morto pelos partidários de Franco logo no início do conflito, em 1936.

  • The black cars of the Guardia Civil – A Guarda Civil era, e ainda é, uma força militar para defender o governo espanhol. Durante a guerra, se posicionou a favor dos golpistas, assim como grande parte do Exército. Ainda junto a Franco estavam os falangistas, de inspiração fascista, e os carlistas, ligados à monarquia conservadora.

  • The freedom fighters died upon the hill – Os voluntários de diversas regiões do globo iam para Espanha para lutar pela liberdade, contra um governo autoritário. Mesmo que muitos não soubessem quase nada sobre a Espanha, se propuseram a lutar, e muitas vezes a morrer, por um ideal. Houve, inclusive, a participação de brasileiros no conflito ao lado dos republicanos. A maioria dos estrangeiros era composta de franceses: cerca de dez mil.

  • They sang the red flag/They wore the black one – Bandeiras vermelhas e pretas se referem aos socialistas e aos anarquistas, respectivamente. Eram as principais forças políticas que se opunham ao golpe. Ambos já eram organizados, mesmo antes do início da Guerra Civil, em grupos como os socialistas na Unión General de Trabajadores (UGT), ou os anarquistas na Confederación Nacional del Trabajo (CNT).

  • With trenches full of poets/ The ragged army, fixin' bayonets to fight the other line – Enquanto os nacionalistas, ou golpistas, contavam com o apoio de Alemanha e Itália, nenhuma nação se posicionou oficialmente em prol dos republicanos enviando tropas. Ou seja: apesar do voluntarismo estrangeiro, havia escassez de armas entre os defensores da democracia, os quais não fizeram largo uso de táticas de guerrilhas, que costumaram dar certo em momentos como esse. Além disso, pelo lado dos franquistas, havia uma direção militar e política única, o que não ocorreu entre os republicanos, talvez pelo caráter ideológico tão diferente dos grupos envolvidos.

  • Spanish bombs rock the province – As bombas que realmente sacudiram a província não eram exatamente espanholas, mas alemãs. Em 26 de abril de 1937, a cidade de Guernica, no País Basco, foi bombardeada pelos aviões da “Legião Condor”, coordenada pela Alemanha nazista. A destruição foi tão grande e violenta que levou Pablo Picasso a pintar o painel Guernica.





  • I'm hearing music from another time – Há de se destacar o cancioneiro da Guerra Civil Espanhola. Tanto do lado nacionalista, como do republicano, havia belas canções que buscavam motivar as tropas, num dos usos mais clássicos da música para fins políticos.

  • Spanish bombs on the Costa Brava – A Costa Brava é o litoral da Catalunha, uma das províncias que mais se destacou na luta contra Franco. Como estava entre as únicas regiões industrializadas da Espanha, teve um acentuado desenvolvimento dos sindicatos e do anarcossindicalismo. Barcelona, a principal cidade catalã, por exemplo, só foi cair para os golpistas em 1939.

A Guerra Civil Espanhola pode ser considerada como uma das últimas “lutas românticas”, por um ideal. Escritores importantes como Ernest Hemingway e George Orwell estiveram no front ao lado dos republicanos, o primeiro escreveu Por quem os sinos dobram e o segundo, Lutando na Espanha.
 A vitória de Franco não significou, porém, que a Espanha se tornasse claramente fascista. Com o tempo, houve um distanciamento dos falangistas e faltavam a Franco alguns elementos que sobravam em Hitler e Mussolini, como por exemplo, o apoio das massas. Mesmo assim, cabe destacar que a Espanha afundou em um longo período de ditadura e autoritarismo, que durou bem mais que os fascismos europeus envolvidos na Segunda Guerra, até o final dos anos 70 do século XX.
A guerra na Espanha ainda foi um laboratório de ensaio para a Segunda Guerra Mundial, principalmente no que se refere aos bombardeios aéreos. Porém não pode ser considerada como uma primeira fase do conflito mundial, por não ter repercussões globais, afinal, o regime ditatorial de Franco manteve a Espanha isolada do mundo por mais trinta anos.
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