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03/01/2013

Você Sabia? #17: A história por trás de "Hurricane", de Bob Dylan

Fonte: Pop / Players

Encontro de Dylan com Rubin "Hurricane" Carter


O décimo sétimo disco de estúdio de Bob Dylan, "Desire",  introduzia a faixa de nome "Hurricane". Voltamos a 1976, quando Dylan ainda segurava-se firme com a Columbia e seu produtor era Don DeVito. Dez anos antes do lançamento do disco, Rubin “Hurricane” Carter, o campeão de boxe dos pesos médios era acusado por um homicídio triplo ocorrido num bar em Nova Jersey. Mas a história do pugilista tinha um longo histórico de outras acusações e envolvimentos com o crime, como pode ser notado nos versos "O pretendente número um à coroa dos pesos-médios / Não tinha idéia do tipo de merda que estava para baixar / Quando um tira o fez parar no acostamento / Igualzinho à vez anterior e à outra vez antes dessa". O fato é que, a acusação de 1966 o levou à cadeia e nos árduos anos que lá passou começara sua própria autobiografia “The Sixteenth Round” ou “O Décimo Sexto Round“.

Bob Dylan teve contato com o livro escrito a punho por Rubin Hurricane que lhe foi enviado por seu passado de compromisso com os direitos civis. Aqui podemos citar exemplos como “The Lonesome Death of Hattie Carroll” ou ainda “The Death of Emmett Till”, músicas em que Dylan protestava contra injustiças sociais. Agora faria da vida sofrível de Carter, ao lado de Jacques Levy (com quem dividiu a autoria da canção) um motivo para falar do racismo que assolava a sociedade americana.

Depois de ler a autobiografia do boxeador – que jazia preso em Nova Jersey -, Bob Dylan, segundo o próprio Levy, não sabia ao certo como conduziria uma canção com tal historia. Logo Bob resolveria encontrar-se com Rubin na cadeia e mais tarde com seus familiares e defensores.

Quem conta um conto aumenta um ponto


Às vezes ao se contar uma história, pode-se escorregar em alguma coisa ou outra, e acabar deixando sua versão um pouquinho diferente, como no telefone sem fio. Ao contar a história de Rubin "Hurricane" Carter, Bob Dylan cometeu alguns deslizes. A Rolling Stone americana aproveitou e os explorou.

Na longa música de 1976, escrita em parceria com Jacques Levy, Rubin era o concorrente a peso médio número um ("Number One contender for the middle weight crown", ou "O pretendente número um à coroa dos pesos-médios"). Na verdade, o boxeador era um atleta em ascenção, mas não era considerado o favorito.

O boxeador não estava do outro lado da cidade na hora do crime pelo qual foi sentenciado, como diz a canção, mas sim a alguns minutos de distância. E o papel da testemunha Patty Valentine no caso foi tão distorcido na música que ela processou Bob Dylan por isso. Os erros não fazem de Dylan um mentiroso, nem de Carter um assassino. Apenas colocam o músico e seu parceiro no lugar de contadores de histórias, não necessariamente atrelados aos fatos.

Para que você possa tirar suas conclusões, eis a letra logo abaixo, e o vídeo:


Tiros de revólver ressoam na noite dentro do bar
Entra Patty Valentine vinda do salão superior
Ela vê o garçom numa poça de sangue
Solta um grito: "Meu Deus, mataram todos eles!"

Aí vem a história do Furacão,
O homem que as autoridades acabaram culpando
Por algo que ele nunca fez.
Colocando numa cela de prisão, mas houve um tempo
Em que podia ter sido o campeão mundial

Três corpos deitados ali é o que Patty vê
E outro homem chamado Bello rodeando misteriosamente
"Eu não fiz isso"ele diz e joga os braços pra cima
"Estava só roubando a registradora , espero que você entenda.

"Eu os vi partindo" ele diz e pára
"É melhor um de nós ligar pros tiras"
E assim Patty chama os tiras
E eles chegam na cena com suas luzes vermelhas piscando
Na noite quente de New Jersey

Enquanto isso, bem longe, em outra parte da cidade
Rubin Carter e uns dois amigos estão dando algumas voltas de carro.
O pretendente número um à coroa dos pesos-médios
Não tinha idéia do tipo de merda que estava para baixar
Quando um tira o fez parar no acostamento

Igualzinho à vez anterior e à outra vez antes dessa
Em Paterson é assim mesmo que as coisas rolam
Se você é negro, melhor nem aparecer na rua
A não ser que queira atrair uma batida policial.

Alfred Bello tinha um parceiro e ele soltou um papo atrás dos tiras
Ele e Arthur Dexter Bradley estavam só fazendo uma ronda
Ele disse: "Vi dois homens saírem correndo, pareciam pesos-médios
Pularam dentro de um carro branco com a placa de outro estado"
E a senhorita Patty Valentine apenas assentiu com a cabeça.

Um tira disse, "Esperem um minuto, rapazes, este aqui não está morto"
Então o levaram à enfermaria
E embora esse homem mal pudesse enxergar
Disseram a ele que podia identificar os culpados.

As 4 da manhã eles arrastam Ruby consigo,
O levam para o hospital e o trazem escada cima
O homem ferido olha pra cima através de seu único olho moribundo
Diz: "Por que vocês o trouxeram aqui dentro? Não é esse o cara!"

Sim, eis aqui a história do Furacão,
O homem que as autoridades acabaram culpando
Por algo que ele nunca fez.
Colocando numa cela de prisão, mas houve um tempo
Em que podia ter sido o campeão mundial.

Quatro meses depois, os guetos estão em chamas,
Rubin está na América do Sul, lutando por seu nome
Enquanto Arthur Dexter Bradley continua no ramo do assalto
E os tiras estão apertando-o, procurando alguém pra culpar.

"Lembra daquele assassinato que aconteceu num bar?"
"Lembra que você disse ter visto o carro fugitivo?"
"Você acha que está a fim de brincar com a lei?"
"Não acha que talvez tenha sido aquele lutador que você viu correndo pela noite?"
"Não se esqueça de que você é branco!"

Arthur Dexter Bradley disse: "Não tenho muita certeza."
Os tiras disseram, "Um rapaz como você precisa de uma folga da polícia
Te pegamos por aquele serviço no motel e agora estamos conversando com seu amigo Bello
Agora você não quer ter de voltar pra cadeia, seja um sujeito legal.
Você estará fazendo um favor a sociedade.

Aquele filho-da-puta é valente e está ficando cada vez mais.
Nós queremos botar o rabo dele pra fritar
Queremos pregar esse triplo assassinato nele
O cara não é nenhum cavalheiro"

Rubin podia apenas nocautear um cara com apenas um soco
Mas nunca gostou muito de falar sobre isso
"É meu trabalho", diria, "E eu o faço para ser pago
E quando isso termina, prefiro cair fora o mais rápido possível
Na direção de algum paraíso
Onde riachos de trutas correm e o ar é ótimo
E andar a cavalo ao longo de uma trilha."

Mas aí o levaram para a cadeia
Onde tentaram transformar um homem num rato.

Todas as cartas de Rubin já estavam marcadas
O julgamento foi um circo de porcos, ele não teve a menor chance.
O juiz fez das testemunhas de Rubin bêbados das favelas
E para os brancos que assistiam, ele era um vagabundo revolucionário
E para os negros, apenas mais um crioulo maluco.

Ninguém duvidava que ele tinha apertado o gatilho.
E embora não conseguissem produzir a arma,
O promotor público disse que era ele o responsável
E o juri, todos de brancos, concordou

Rubin Carter foi falsamente julgado
O crime foi de assassinato "em primeiro grau", adivinha quem testemunhou?
Bello e Bradley, e ambos mentiram descaradamente
E os jornais, todos pegaram uma carona nessa onda.

Como pode a vida de um homem desses
Ficar na palma da mão de algum tolo?
Vê-lo obviamente condenado numa armação
Não teve outro jeito a não ser me fazer sentir vergonha
De morar numa terra onde a justiça é um jogo.

Agora todos os criminosos em seus paletós e gravatas
Estão livres para beber martinis e assistir o sol nascer
Enquanto Rubin fica sentado como Buda em uma cela de 3 metros
Um inocente num inferno vivo.

Essa é a história do Furacão,
Mas não terá terminado enquanto não limparem seu nome
E devolverem a ele o tempo que serviu.
Colocado numa cela de prisão, mas houve um tempo
Em que podia ter sido o campeão mundial.



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