Onde se respira música.

29/01/2013

Chuck Berry: O pai dos Beatles, dos Stones e de tudo que veio depois


Fonte: Whiplash


Como medir, objetivamente, a importância de um músico na história? Eis uma tarefa ingrata.

A qualidade musical é algo subjetivo, e dificilmente há consenso quando se trata de quem é o melhor músico de todos os tempos. Esta avaliação é vaga até mesmo quando feitas por instrumentistas competentes, já que mesmo quando se avalia tecnicamente muitos aspectos subjetivos entram em conta.

Porém, quando se toma em consideração a influência de algum músico, essa avaliação pode ser mais objetiva. Então resolvemos analisar a importância dele para a música do século XX.

O critério objetivo escolhido foi o número de canções de Berry que ganharam versões de outros artistas reconhecidamente importantes, e também as influências mais notáveis em ícones da guitarra. Quando pensamos em Rock, nos vêm de imediato à cabeça nomes como Elvis Presley nos anos 1950, The Beatles e Rolling Stones nos 60, Led Zeppelin e Deep Purple nos 70. E o que todos esses artistas têm em comum: todos são declaradamente influenciados por Chuck Berry.

Isso fica ainda mais claro quando pesquisamos que todos esses artistas, em algum momento da carreira, regravaram músicas de Berry.

Elvis apareceu como o artista que deveria tirar o Rock dos becos e levá-lo ao público branco em geral. Antes de Elvis, o Rock era encarado como uma música essencialmente negra. Presley começou a aparecer tocando versões de músicos negros como Little Richards, Fat Domino e, obviamente, Chuck Berry. Apesar de não ter gravado nenhuma versão de Berry nos seus primeiros discos, era comum que o “Rei do Rock” executasse canções como “Brown Eyed Handsome Man” e “Johnny B. Goode”. Já no final de carreira, no “Aloha From Hawaii”, Elvis transmitiu o maior clássico de Berry para todo o mundo, através da primeira transmissão via satélite da história. Outros astros do “rock branco” dos anos 50 também regravaram canções de Berry, como Buddy Holly, Jerry Lee Lewis e Roy Orbison.

Os anos 60 foram marcados pela “invasão britânica” no Rock. Mas as influências dos ingleses vinham de “além-mar”, mas especificamente de St. Louis. Bandas como The Animals, The Kinks, The Yardbirds, The Beatles e The Rolling Stones gravaram canções de Berry em seus discos. Essa influencia fez com que o músico americano lançasse, em 1964, um disco chamado “St. Louis to Liverpool”, em alusão ao sucesso de suas composições no velho continente.

Os Beatles eram os britânicos que mais colocaram Chuck Berry no pedestal dos ícones do Rock. Além de gravarem “Roll Over Beethoven” e “Rock and Roll Music” logo nos seus primeiros discos, músicas como “Carol”, “I’m Talking About You”, “Little Quennie”, “Memphis, Tennessee” e “Sweet Little Sixteen” apareciam com muita freqüência nas apresentações ao vivo da banda, e são facilmente encontradas nas compilações de raridades do quarteto de Liverpool.

Mesmo com o fim da banda, em 1970, Lennon e McCartney continuaram demonstrando sua admiração por Berry. Em seu penúltimo disco, “Rock ‘n’ Roll”, de 1975, John fez uma homenagem aos seus ídolos e adivinha qual foi o único compositor que teve duas canções regravadas? Acertou, Chuck Berry! Ele fez versões de “You Can't Catch Me” e “Sweet Little Sixteen”.

Paul fez o mesmo que John, em 1999, no álbum “Run Devil Run”, que continha algumas composições do ex-Beatles inspiradas no Rock dos anos 50, além de um punhado de covers da época, dentre elas “Brown Eyed Handsome Man”, de Berry. Nesse disco, McCartney teve a ajuda de grandes admiradores de Berry: David Gilmour (Pink Floyd) e Ian Paice (Deep Purple).

Outra grande banda da invasão britânica, os Stones, também executavam canções de Berry em suas apresentações, tais quais “Around Around”, “Down The Road Apiece” (lançada no disco “No. 2”, de 1965), “Let It Rock”, “Carol” e “Little Quennie”, essas duas últimas ficaram registradas em um dos mais memoráveis discos ao vivo da história, o “Get Yer Ya-Ya’s Out”, de 1970.

Para encerrar as bandas dos anos 60, não podemos esquecer do Yardbirds, banda que contou guitarristas como Eric Clapton, Jimmy Page e Jeff Beck. Em seu primeiro disco, ainda com Clapton nas guitarras, eles regravaram “Too Much Monkey Business”. Quando Clapton e Beck, já faziam parte do passado, Page idealizava o “New Yardbirds”, que com a entrada de Robert Plant e John Bonham, acabaria virando o Led Zeppelin.

Se você acha que Zeppelin não tinha muito a ver com Chuck Berry, está muito enganado. Nas sessões das gravações dos primeiros discos do Led, a banda registrou algumas versões de canções de Berry, como: “Around Around”, “Reelin’ and Rockin’” e “Shools Days”. Essas versões podem ser encontradas na compilação de raridades da banda, lançada como bootleg, chamada “Cabala”, especificamente no volume 6.

Em fins dos anos 60 e começo dos 70, além do Zep, algumas outras bandas regravaram Chuck Berry como Mountain, Ten Years After, The Doors, e o grande Jimi Hendrix, que não poupava elogios ao seu conterrâneo precursor do Rock. Até mesmo bandas como o MC5, consideradas ovelhas-negras do rock da época, gravaram Berry (MC5 é considerado, junto com os Stooges, precursores do punk).

Outra combinação que não tão evidente do som de Chuck Berry com o som feito nos anos 70 (mais especificamente o hard rock de meados da década) é o AC/DC. Talvez um ouvinte mais desarpecebido não encontre ligação entre o som desses artistas, mas só a atitude do principal guitarrista dessa banda nos remete a presença de palco de Berry. As dancinhas feitas por Angus Young são declaradamente inspiradas no “Duck Walk” de Chuck, mas as influências não ficam só nisso. No primeiro disco do AC/DC (lançado na Austrália, em 1975, como “TNT”), há uma música de Berry, que os mais desavisados nem perceberiam que se trata de um cover. Estou falando de “School Days”, que é impressionantemente parecida com o estilo de músicas feito pela banda durante todos esses anos. “School Days” poderia ter sido creditada a Young se já não fosse um grande sucesso de Berry. O mérito de Young foi colocar distorção nos riffs de Berry e seguir essa linha durante toda a sua carreira.

O AC/DC é a prova da importância de Chuck Berry para a história do Rock ‘n’ Roll. De Elvis a MC5, passando por Beatles e Led Zeppelin, todos têm um quê de Berry em seu som.


Basicamente, Berry é o pilar dos Beatles, de Keith Richards e de Angus Young.

Como diria o bom velho: "Hail Hail, Rock N' Roll!"

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09/01/2013

Legião Urbana: Prog ao estilo Rush

Que o Legião teve origem após o término do Aborto Elétrico, uma banda punk, a maioria já sabe. Mas o que pouca gente sabe, é que já no seu auge, a banda lançaria em 1991, o seu quinto disco, "V". E se você acha que no Brasil não existe Prog Rock, esse álbum é a prova da existência, com seus vários arranjos e estruturas próprios do gênero. E o melhor exemplo, é, talvez, "Metal Contra As Nuvens", com seus onze minutos épicos.

Agora, ouçam com atenção suas partes acústicas, sobretudo desde o início até 03:20, e depois de 07:58 até 10:24, e notem o quão semelhante ela é com "Tears", de uma das maiores bandas de Prog da história, o Rush. "Tears" faz parte do clássico "2112", de 1976. A semelhança em "Tears" é perceptível em toda a música, mas principalmente de 1:42 à 1:54.

Confiram as duas músicas abaixo:



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07/01/2013

Joias do Youtube #1: Led Zeppelin - Led Zeppelin - Live at The Royal Albert Hall (1970)

Esta seção foi criada para aqueles apreciam os shows e documentários que os usuários do Youtube nos disponibilizam. Alguns raros, outros clássicos em HD, e por aí vai.

E pra começar, uma das bandas responsáveis pelo aparecimento do Heavy Metal.


Gravado em Londres, no Royal Albert Hall, este show do Led Zeppelin conta com 12 músicas da banda, que até aquele momento havia lançado apenas dois álbuns: "Led Zeppelin I" e "Led Zeppelin II". Apesar disto, a apresentação conta com algumas músicas que só seriam lançadas em CD mais tarde, como "We're Gonna Groove" e "White Summer". "Somethin' Else" também só seria lançada na compilação "BBC Sessions", de 1997.

"Dazed and Confused" é um dos momentos mais épicos do show, com pouco mais de 15 minutos de duração. Além dela, Page, Plant e John abrem espaço para John "Bonzo" Bonham brilhar com "Moby Dick" e seus longos (ou seriam curtos?) 15 minutos de solo de bateria.

Enfim, um show para provar que o Led é muuuuito maior que "Stairway to Heaven".

Confiram o show logo abaixo:


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06/01/2013

Johnny Cash: "Hello, I'm Johnny Cash". A história de "At Folsom Prison"

Fonte: Palco Alternativo / Ad Vivo

“Hello, I’m Johnny Cash”

“Hello, I’m Johnny Cash”. Com essa frase, em 13 de janeiro de 1968, Johnny Cash dava início a uma gravação histórica: o disco ao vivo Johnny Cash At Folsom Prison. Poderia ser apenas mais um disco ao vivo, gravado em um show comum, no qual a plateia vai até o artista. Não no caso de Cash.
Talvez a parte mais incrível desta história seja a sensibilidade de Cash, que em vez de esperar pela sua plateia, foi até ela na prisão de Folsom. Mas antes de falarmos daquela noite, é bom lembrar como essa prisão entrou na vida de Cash.

"Folsom Prison Blues"


Nos anos 60, enquanto servia a Força Aérea, Johnny Cash assistiu Inside The Walls of Folsom Prison, filme de 1951 sobre a famosa prisão e, inspirado no filme, compôs o clássico Folsom Prison Blues. Lançada em dezembro de 1955, a canção estourou e, em 1966, Cash apresentou a música na prisão de Folsom.

Cash se "encorpora" em um presidiário e nos transmite toda a tristeza de não haver contato com o mundo lá fora. Versos como "Eu ouço o trem chegando / Está passando pela curva / E não tenho visto o sol desde nem me lembro quando" nos fazem entendê-lo.

A letra da canção pode ser conferida logo abaixo:

Eu ouço o trem chegando
Está passando pela curva
E eu não tenho visto o sol desde eu nem me lembro quando

Eu estou preso na prisão de Folsom, e o tempo continua se arrastando
Mas aquele trem continua passando, indo até San Anton...
Quando eu era só um bebê, minha mãe me disse:
"Filho, sempre seja um bom menino, nunca brinque com armas."
Mas eu atirei num homem em Reno só para vê-lo morrer
Agora toda vez que escuto aquele apito, eu seguro minha cabeça e choro...

Eu aposto como existem ricaços jantando num restaurante da moda
Eles provavelmente estão bebendo café e fumando charutos.
Bem, eu sabia que isto aconteceria, eu sei que não posso ser livre
Mas essas pessoas continuam vivendo
E é isso o que me tortura...

Bem, se eles me libertassem desta prisão,
Se aquele trem fosse meu,
Eu aposto como eu iria só mais um pouco longe
Longe da prisão de Folsom é onde quero ficar
E deixaria aquele apito levar minhas tristezas...





"At Folsom Prison": O disco



O disco "At Folsom Prison" começa com a clássica "Folsom Prison Blues", que fala das advertências de sua mãe para ser sempre um bom garoto, e outros detalhes, como o trem passando, a ausência do sol, a indignação de viver enjaulado enquanto ricos bebem café e fumam seus charutos. Um dos versos mais famosos da canção é: "But I shot a man in Reno / Just to watch him die”.

Na sequência, outros hits de prisão, "Busted", "Dark as the Dungeon", na qual depois do oitavo verso, Cash ouve risadas e solta o seguinte comentário: “Uh uh sem risadas durante esta canção, por favor, está sendo gravado. Vocês não sabem que estamos gravando isto?”, e ainda "I Still Miss Someone", sobre a carência afetiva dos encarcerados, "Cocaine Blues", sobre a qual não é preciso falar muito e "25 Minutes to GO", sobre os minutos finais de um condenado à morte.

Dentre as 19 canções do disco, além das citadas acima, outras três merecem destaque. Uma delas é "Jackson", na qual Cash chama sua companheira, dentro e fora dos palcos, June Carter, para um dueto. Vocês podem imaginar o alvoroço criado pela presença de uma mulher – e diga-se de passagem, uma bela mulher – na Folsom Prison.

"I Got Stripes" talvez seja a música mais celebrada em todo o disco. Isso porque entre os seus versos, Cash canta “I got stripes around my shoulder”, frase que fazia os presos assoviarem, aplaudirem e gritarem. A euforia tinha razão de ser: um grande cantor estava ali dizendo que entendia tudo o que eles estavam vivendo e que, na verdade, era como eles.


Os 15 minutos de fama de Glen Sherley

Para coroar o respeito do cantor para com sua plateia, Cash encerra o disco com uma canção feita por um dos prisioneiros da Folsom.

Preso por assalto a mão armada, Glen Sherley teve sua canção, "Greystone Chapel", sobre a capela da prisão, interpretada de surpresa por Cash no show. Antes de interpretá-la, Cash estende a mão ao detento, que estava sentado na primeira fileira, e o apresenta como o autor da música.

A música havia sido apresentada a Cash e sua banda, a Tennessee Three Marshall Grant, pelo reverendo Gresset, um grande amigo do cantor e que atuava com os presos da Folsom Prison. Depois do show, Cash e June se compadeceram do sonho de Sherley de tornar-se cantor.

Johnny Cash intercedeu para que Sherley conseguisse a liberdade e o levou para a estrada. Além de música, fizeram diversas denúncias sobre o sistema prisional norte-americano. Mas devido a problemas com drogas e a incapacidade de se ressocializar levaram o ex-detento ao suicídio em 1978.

Para quem quiser saber mais sobre esse disco mítico, além de ouvir o disco, vale conferir o documentário "Johnny Cash at Folsom Prison", de Bestor Cram. Como não há imagens sobre o show, apenas fotos, o relato é composto de entrevistas de quem participou da gravação do disco.

“Se Johnny tivesse dito ‘vamos fugir daqui’, os detentos o teriam seguido”, afirmou o fotógrafo Jim Marshall, responsável por todas as imagens do show que aparecem na tela. Rosanne, filha de Cash, diz no filme que foi justamente este momento na prisão de Folsom, apesar de toda a carga negativa que uma prisão pode ter, que Cash se tornou quem realmente era.

E se "At Folsom Prison" é mesmo a obra que fez de Johnny Cash quem ele realmente era, não há necessidade de justificar a importância deste disco, para ele e para os homens que tiveram, ainda que por algumas horas, um dia inesquecível entre as paredes da Folsom Prison.

Setlist:

1. Folsom Prison Blues
2. Busted
3. Dark as the Dungeon
4. I Still Miss Someone
5. Cocaine Blues
6. 25 Minutes to Go
7. Orange Blossom Special
8. The Long Black Veil
9. Send a Picture of Mother
10. The Wall
11. Dirty Old Egg Sucking Dog
12. Flushed from the Bathroom of Your Heart
13. Joe Bean
14. Jackson
15. Give My Love to Rose
16. I Got Stripes
17. The Legend of John Henry’s Hammer
18. Green, Green Grass of Home
19. Greystone Chapel

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03/01/2013

Você Sabia? #17: A história por trás de "Hurricane", de Bob Dylan

Fonte: Pop / Players

Encontro de Dylan com Rubin "Hurricane" Carter


O décimo sétimo disco de estúdio de Bob Dylan, "Desire",  introduzia a faixa de nome "Hurricane". Voltamos a 1976, quando Dylan ainda segurava-se firme com a Columbia e seu produtor era Don DeVito. Dez anos antes do lançamento do disco, Rubin “Hurricane” Carter, o campeão de boxe dos pesos médios era acusado por um homicídio triplo ocorrido num bar em Nova Jersey. Mas a história do pugilista tinha um longo histórico de outras acusações e envolvimentos com o crime, como pode ser notado nos versos "O pretendente número um à coroa dos pesos-médios / Não tinha idéia do tipo de merda que estava para baixar / Quando um tira o fez parar no acostamento / Igualzinho à vez anterior e à outra vez antes dessa". O fato é que, a acusação de 1966 o levou à cadeia e nos árduos anos que lá passou começara sua própria autobiografia “The Sixteenth Round” ou “O Décimo Sexto Round“.

Bob Dylan teve contato com o livro escrito a punho por Rubin Hurricane que lhe foi enviado por seu passado de compromisso com os direitos civis. Aqui podemos citar exemplos como “The Lonesome Death of Hattie Carroll” ou ainda “The Death of Emmett Till”, músicas em que Dylan protestava contra injustiças sociais. Agora faria da vida sofrível de Carter, ao lado de Jacques Levy (com quem dividiu a autoria da canção) um motivo para falar do racismo que assolava a sociedade americana.

Depois de ler a autobiografia do boxeador – que jazia preso em Nova Jersey -, Bob Dylan, segundo o próprio Levy, não sabia ao certo como conduziria uma canção com tal historia. Logo Bob resolveria encontrar-se com Rubin na cadeia e mais tarde com seus familiares e defensores.

Quem conta um conto aumenta um ponto


Às vezes ao se contar uma história, pode-se escorregar em alguma coisa ou outra, e acabar deixando sua versão um pouquinho diferente, como no telefone sem fio. Ao contar a história de Rubin "Hurricane" Carter, Bob Dylan cometeu alguns deslizes. A Rolling Stone americana aproveitou e os explorou.

Na longa música de 1976, escrita em parceria com Jacques Levy, Rubin era o concorrente a peso médio número um ("Number One contender for the middle weight crown", ou "O pretendente número um à coroa dos pesos-médios"). Na verdade, o boxeador era um atleta em ascenção, mas não era considerado o favorito.

O boxeador não estava do outro lado da cidade na hora do crime pelo qual foi sentenciado, como diz a canção, mas sim a alguns minutos de distância. E o papel da testemunha Patty Valentine no caso foi tão distorcido na música que ela processou Bob Dylan por isso. Os erros não fazem de Dylan um mentiroso, nem de Carter um assassino. Apenas colocam o músico e seu parceiro no lugar de contadores de histórias, não necessariamente atrelados aos fatos.

Para que você possa tirar suas conclusões, eis a letra logo abaixo, e o vídeo:


Tiros de revólver ressoam na noite dentro do bar
Entra Patty Valentine vinda do salão superior
Ela vê o garçom numa poça de sangue
Solta um grito: "Meu Deus, mataram todos eles!"

Aí vem a história do Furacão,
O homem que as autoridades acabaram culpando
Por algo que ele nunca fez.
Colocando numa cela de prisão, mas houve um tempo
Em que podia ter sido o campeão mundial

Três corpos deitados ali é o que Patty vê
E outro homem chamado Bello rodeando misteriosamente
"Eu não fiz isso"ele diz e joga os braços pra cima
"Estava só roubando a registradora , espero que você entenda.

"Eu os vi partindo" ele diz e pára
"É melhor um de nós ligar pros tiras"
E assim Patty chama os tiras
E eles chegam na cena com suas luzes vermelhas piscando
Na noite quente de New Jersey

Enquanto isso, bem longe, em outra parte da cidade
Rubin Carter e uns dois amigos estão dando algumas voltas de carro.
O pretendente número um à coroa dos pesos-médios
Não tinha idéia do tipo de merda que estava para baixar
Quando um tira o fez parar no acostamento

Igualzinho à vez anterior e à outra vez antes dessa
Em Paterson é assim mesmo que as coisas rolam
Se você é negro, melhor nem aparecer na rua
A não ser que queira atrair uma batida policial.

Alfred Bello tinha um parceiro e ele soltou um papo atrás dos tiras
Ele e Arthur Dexter Bradley estavam só fazendo uma ronda
Ele disse: "Vi dois homens saírem correndo, pareciam pesos-médios
Pularam dentro de um carro branco com a placa de outro estado"
E a senhorita Patty Valentine apenas assentiu com a cabeça.

Um tira disse, "Esperem um minuto, rapazes, este aqui não está morto"
Então o levaram à enfermaria
E embora esse homem mal pudesse enxergar
Disseram a ele que podia identificar os culpados.

As 4 da manhã eles arrastam Ruby consigo,
O levam para o hospital e o trazem escada cima
O homem ferido olha pra cima através de seu único olho moribundo
Diz: "Por que vocês o trouxeram aqui dentro? Não é esse o cara!"

Sim, eis aqui a história do Furacão,
O homem que as autoridades acabaram culpando
Por algo que ele nunca fez.
Colocando numa cela de prisão, mas houve um tempo
Em que podia ter sido o campeão mundial.

Quatro meses depois, os guetos estão em chamas,
Rubin está na América do Sul, lutando por seu nome
Enquanto Arthur Dexter Bradley continua no ramo do assalto
E os tiras estão apertando-o, procurando alguém pra culpar.

"Lembra daquele assassinato que aconteceu num bar?"
"Lembra que você disse ter visto o carro fugitivo?"
"Você acha que está a fim de brincar com a lei?"
"Não acha que talvez tenha sido aquele lutador que você viu correndo pela noite?"
"Não se esqueça de que você é branco!"

Arthur Dexter Bradley disse: "Não tenho muita certeza."
Os tiras disseram, "Um rapaz como você precisa de uma folga da polícia
Te pegamos por aquele serviço no motel e agora estamos conversando com seu amigo Bello
Agora você não quer ter de voltar pra cadeia, seja um sujeito legal.
Você estará fazendo um favor a sociedade.

Aquele filho-da-puta é valente e está ficando cada vez mais.
Nós queremos botar o rabo dele pra fritar
Queremos pregar esse triplo assassinato nele
O cara não é nenhum cavalheiro"

Rubin podia apenas nocautear um cara com apenas um soco
Mas nunca gostou muito de falar sobre isso
"É meu trabalho", diria, "E eu o faço para ser pago
E quando isso termina, prefiro cair fora o mais rápido possível
Na direção de algum paraíso
Onde riachos de trutas correm e o ar é ótimo
E andar a cavalo ao longo de uma trilha."

Mas aí o levaram para a cadeia
Onde tentaram transformar um homem num rato.

Todas as cartas de Rubin já estavam marcadas
O julgamento foi um circo de porcos, ele não teve a menor chance.
O juiz fez das testemunhas de Rubin bêbados das favelas
E para os brancos que assistiam, ele era um vagabundo revolucionário
E para os negros, apenas mais um crioulo maluco.

Ninguém duvidava que ele tinha apertado o gatilho.
E embora não conseguissem produzir a arma,
O promotor público disse que era ele o responsável
E o juri, todos de brancos, concordou

Rubin Carter foi falsamente julgado
O crime foi de assassinato "em primeiro grau", adivinha quem testemunhou?
Bello e Bradley, e ambos mentiram descaradamente
E os jornais, todos pegaram uma carona nessa onda.

Como pode a vida de um homem desses
Ficar na palma da mão de algum tolo?
Vê-lo obviamente condenado numa armação
Não teve outro jeito a não ser me fazer sentir vergonha
De morar numa terra onde a justiça é um jogo.

Agora todos os criminosos em seus paletós e gravatas
Estão livres para beber martinis e assistir o sol nascer
Enquanto Rubin fica sentado como Buda em uma cela de 3 metros
Um inocente num inferno vivo.

Essa é a história do Furacão,
Mas não terá terminado enquanto não limparem seu nome
E devolverem a ele o tempo que serviu.
Colocado numa cela de prisão, mas houve um tempo
Em que podia ter sido o campeão mundial.



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