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18/06/2017

David Bowie e a inspiração em "1984", de George Orwell


No início dos anos 70, David Bowie era um dos principais rockstars - senão o principal. Após a era Ziggy, com discos como "The Rise and Fall of Ziggy..." e "Alladin Sane", a ambição do músico permanecia alta. Era preciso algo inovador e impactante.

Após as gravações do álbum "Pin Ups", de 1973, veio a ideia de trabalhar em uma peça sobre o clássico da literatura "1984", de George Orwell, sendo os direitos prontamente negados pela viúva do escritor. Mas Bowie não estava contente. Após abandonar a personagem Ziggy, era necessário algo grandioso. Dessa forma, Bowie demitiu sua banda de apoio, os Spiders from Mars, e entrou de cabeça na produção de "Diamond Dogs", de 1974, com forte influência do livro de Orwell, mas com seu conceito associado a um mundo pós-apocalíptico. Nele, Bowie é Halloween Jack, líder da gangue Diamond Dogs.

Fica evidente, já pelo interlúdio "Future Legend", ao citar a fictícia cidade Hunger City e os peoploids que David mergulha totalmente no que ambienta a fantasia do disco. A faixa-título que sucede o interlúdio é uma bela apresentação de como se encontra o mundo. "This ain't Rock N' Roll. This is genocide", diz no início da faixa, o que denota o domínio das novas criaturas, os tais "Diamond Dogs".

A doçura de "Sweet Thing" (sem trocadilhos) através do piano de Mike Garson é notória, assim como a busca por companhia em meio ao caos em "Candidate". "Rebel Rebel", música de maior sucesso do álbum, revela uma personagem que quer se libertar, mas ainda vive das aparências, cada vez mais próxima de mostrar a verdade e se tornar livre. Seguindo a mesma linha, "Rock N' Roll With Me" varia por se tratar da busca por liberdade por alguém que o impulsione.

"We Are The Dead" é um total filme de terror, enquanto "1984" retrata bem o que é a obra de Orwell: a tentativa do Estado de alienar a sociedade. "Big Brother" é zombeteira, sendo uma crítica a um ser superior negligente.

Numa visão geral, "Diamond Dogs" não correspondeu a altura do que Bowie buscava, mas ainda assim tem o seu valor e vale o play! Não deixando de ser polêmico, Bowie anteriormente quis emplacar a capa abaixo, com a genitália a amostra, que foi obviamente censurada, saindo de circulação rapidamente.





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15/06/2017

Conheça o Wolf Alice



Entre a calmaria e a tempestade. Assim podemos definir os britânicos do Wolf Alice. Ao menos em seu debut, e até aqui seu único álbum, "My Love Is Cool", de 2015. A banda, capitaneada pela vocalista Ellie Rowsell, está na ativa desde 2010, quando ainda se tratava de um duo. As influências do grupo são incontáveis, passando por grupos alternativos dos anos 80 e 90.

Numa linha que beira entre o alternativo e o indie, o Wolf Alice sabe explorar a versatilidade vocal de sua frontwoman. Essa é, possivelmente, a maior qualidade do álbum. O contraste das faixas o torna mais atrativo, como ao comparar "Bros" e "Your Loves Whore" com "Giant Peach", que lembra o estilo vocal do grupo oitentista The Go-Go's. Em outras, como "You're A Germ", há um clima soturno até se desencadeia num som quase pop/punk.

Há também talvez o carro-chefe do álbum: "Silk" e seu clima também sombrio fazem parte da (ótima) trilha sonora do filme Trainspotting 2, o que prova a qualidade que os londrinos mostram ao serem reconhecidos em uma sequência de um dos clássicos do cinema alternativo.
O grupo irá lançar seu segundo álbum ainda em 2017, e tem tudo pra provar que a qualidade do primeiro disco não foi o único momento de inspiração.

Abaixo você pode conferir o debut do grupo e a nova música "Yuk Foo", que fará parte do segundo disco, "Visions of a Life", a ser lançado em 29 de setembro desse ano.


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04/06/2017

Da misoginia ao budismo: a evolução dos Beastie Boys

Encontro de MCA com Dalai Lama
1994: Os Beastie Boys estouravam nas paradas com o disco "Ill Communication. No seu disco de maior sucesso, o grupo - e principalmente MCA - surgiu com letras incomparavelmente mais elaboradas, além de mostrar que estavam com os pés fincados numa evolução espiritual baseada no budismo. Além do sucesso comercial a partir de canções como "Sabotage", "Root Down" e "Sure Shot", o trio deixou claro em canções como "Shambala" e "Bodhisattva Vow" sua busca por evolução. Basta observar a letra de "Bodhisattva Vow": "As I develop the awakening mind I praise the buddhas as they shine / I bow before you as I travel my path to join your ranks / I make my full time task / For the sake of all beings I seek / The enlightened mind that I know I'll reap /  Respect to Shantidiva and all the others / Who brought down the dharma for sisters and brothers / I give thanks for this world as a place to learn / And for this human body that I'm glad to have earned" ("Enquanto desenvolvo o despertar da mente louvo a Buda enquanto eles brilham / Me curvo diante de ti enquanto viajo para o meu destino para me juntar a sua classe / Faço meu dever o tempo todo / Pelo bem de todos os seres que procuro / A mente iluminada que sei que colherei / Respeito a Shantidiva e todos os outros / Que trouxeram o dharma para as irmãs e irmãos / Agradeço a esse mundo como um lugar para aprender / E por esse corpo que estou feliz por ter ganho").

Indo além, durante a década de 90, Adam participou de causas e projetos dos mais variados relacionados ao budismo, sendo o mais importante deles a participação no Lollapalooza '94, onde o grupo defendeu a independência do Tibet em relação a China, algum tempo depois realizando seu próprio festival para tal causa, no qual houve performances em várias cidades, como San Francisco, NY, Washington, e até fora dos EUA, como em Tokyo, Sydney e Amsterdam.

Mas nem sempre foi assim. Em meados da década de 80, ainda no início do grupo e com uma sonoridade bem distante da qual ficaram famosos mundialmente, o punk, o trio expôs ideias no mínimo conservadoras e misóginas.

Em 1986 lançaram seu debut, "Licensed to Ill", que estourou nas paradas. O nome poderia ser outro completamente diferente e polêmico. Anteriormente a ideia era que fosse intitulado "Don't Be A Faggot" ("Não seja uma bicha", em tradução literal). Essa possibilidade acabou por revelar o preconceito que o grupo mostrava na época. Indo mais a fundo, na sexta faixa do debut, "Girls", um trecho revela um Beastie Boys misógino em alto e bom som: "Girls - to do the dishes / Girls - to clean up my room / Girls - to do the laundry / Girls - and in the bathroom / Girls - that's all I really want is girls / Two at a time - I want girls" ou "Garotas - para lavar as louças / Garotas - para limpar meu quarto / Garotas - para lavar as roupas / Garotas - e fazer no banheiro / Garotas - tudo que eu quero são garotas / Duas de uma vez - Eu quero garotas".

O tempo passa, e para nosso bem as pessoas evoluem - ou ao menos deveriam.

MCA morreu em 2012, de câncer de garganta. Uma perda irreparável para a música.



Abaixo, uma homenagem que se tornou anual para MCA.



Principal fonte: HuffPost Brasil

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01/06/2017

A trilha como um dos pilares de Breaking Bad


Que Breaking Bad é até hoje uma das séries mais aclamadas de todos os tempos, você já deve saber.

Para prestigiar o sucesso e o legado da produção de Vince Gilligan, um usuário do Spotify (@postersminimalistas) reuniu em uma playlist o que de melhor fez parte da trilha da série em suas cinco temporadas.

Em pouco mais de 2h, a playlist conta com canções de cenas marcantes da série, como a latina "Negro y Azul: Ballad of Heisenberg", do grupo Los Cuates de Sinaloa, que abre o sétimo episódio da segunda temporada, "Negro Y Azul"; "Out of Time Man", de Mick Harvey, que fecha o episódio piloto.

Conta também com a canção "Catch Yer Own Train", que fecha o primeiro episódio de impacto na trama; além da emblemática cena de Walter em seu carro ao som de "A Horse With No Name", do America (S03E02), e é claro, da música tema, com a trilha com Dave Porter como responsável.

Vale o play!





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16/04/2016

O non-sense do Pixies que influenciou os Strokes



1988. O Pixies ainda tinha os pés na cena independente. O disco "Surfer Rosa" seria o início do barulho que a banda viria a fazer - um ano depois "Doolittle atrairia a massa. O contraste de um riff inocente com uma letra densa e complexa formam "Where Is My Mind?", a faixa mais notória de "Surfer...". A canção, que foi composta pelo vocalista e frontman Black Francis após um dia de mergulho, trata de adversidades, principalmente quando cantado o verso "With your feet on the air and your head on the ground" (Com seus pés no ar e sua cabeça no chão). Apesar de densa "Where Is My Mind" se clareia em seu final, com uma voz que ecoa, porém parece perdida. A canção teve grande sucesso, apesar de não ter virado single, porém, onze anos depois, obteve sua máxima repercussão ao ser introduzida na cena final e créditos do filme cult "Fight Club".

Curiosamente, em 2001, o mesmo riff despretensioso é executado praticamente da mesma forma, na primeira faixa do disco de estreia dos Strokes, "Is This It". A faixa-título tem algumas semelhanças com a faixa do Pixies, apesar de ser mais focada em relacionamento. Mas a influência é absurda, tendo em vista que Pixies, junto de outras bandas, como Sonic Youth e Smiths, essa já em outra vertente, abriram as portas da cena independente. A maior diferença é que o Pixies alterna seu ritmo durante toda a canção. enquanto os estreantes nova-iorquinos cadenciam a música integralmente.

Basicamente, a primeira trata de um descontrole mental. Já a segunda o descontrole emocional impera.



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12/04/2016

A ode de Stevie Wonder às suas origens


Ser uma lenda da música é coisa para poucos. Mas quando se trata de uma lenda reverenciando outra, isso só enaltece a grandiosidade do artista em questão. Assim é com Stevie Wonder, que em 1976 lançou "Sir Duke", faixa do clássico álbum "Songs In The Key of Life".

Em 1976, Wonder já tinha mais de uma década de carreira, além de vir de grandes álbuns ["Talking Book", de 1972, e "Innervisions", de 1973]. Com a faixa, ele veio para homenagear a era das big bands, mas mais precisamente Duke Ellington, que faleceu dois anos antes. E se tratando de uma homenagem a um dos expoentes do jazz, nada melhor que encher a canção de metais. Começando pela intro cativante, e Wonder aparecendo no ritmo da guitarra, com um riff muito simples, por sinal. A bateria também é responsável pelo swing da canção.

O tributo fica evidente na estrofe "A música sabe que é e sempre será / Uma das coisas da vida que não acabará / Mas aqui estão alguns dos pioneiros da música / Que o tempo não nos permitirá esquecer / Aqui está o Basie, Miller, Satchmo, e o rei de todos: Sir. Duke / Com uma voz sonora como a de Ella / Não há como a banda poder perder." Os artistas citados são Count Basie, Glenn Miller e "Satchmo", como Louis Armstrong era conhecido, além de Ella Fitzgerald.

Mas a canção vai além do tributo. É um reconhecimento do poder que a música tem sobre nós, de a entendermos e sermos entendidos, simultaneamente.

A canção foi lançada como single em 1977. Também foi incluída no livro "1001 canções para ouvir antes de morrer".

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17/10/2015

Resenha | Coheed and Cambria - The Color Before The Sun [2015]



O Coheed volta dois anos após o lançamento do duplo "The Afterman". E a mudança é visível... Marca da carreira do grupo, pela primeira vez não vemos um álbum conceitual. "The Color Before The Sun", lançado hoje, tem uma diversidade a qual raramente se viu na banda. O que pode não agradar aos fãs mais xiitas. O amadurecimento é visível, e o som se abrange desde um som mais pop até sons bem mais densos puxados para o heavy. E para isso, o baixo de Zach Cooper tem um papel essencial.

"Island" é um dos melhores exemplos do pilar pop do disco, em especial pelos vocais de Claudio Sanchez e o riff nada elaborado de guitarra. E "Eraser", divulgada há duas semanas, reforça essa pegada em parte do disco. A energia de Sanchez de uma década atrás é trocada pela cadência na maioria das vezes.

A serenidade de "Colors" a torna uma das preciosidades do LP, pelo andamento que Sanchez é capaz de dar, especialmente no refrão. Um outro ponto de vista bem perceptível no álbum é a inclusão de letras bastante pessoais para o vocalista, como em "Here to Mars", onde ele conecta amor com a física, como o próprio título indica. A faixa também contém uma referência do disco de 2005 da banda, "Good Apollo", no trecho "'Cause there's no one like you on earth / That can be my burning star".

"Ghost" é tão tranquila com seu dedilhado que poderia ter sido tirada de algum álbum do Stone Sour. Até o timbre de Sanchez é, em alguns momentos, parecido com o de Corey Taylor. "Atlas" tem uma das melhores letras do disco, retratando coragem, independência - ou a falta de - além de arrependimento por oportunidades perdidas. É, sem dúvida, a que mais demonstra maturidade do grupo no disco. Assim como em "Here to Mars", o amor também é tema em "Young Love", mas com uma abordagem diferente, demonstrando algum tipo de ressentimento.

Com uma abordagem pop, "You Got Spirit, Kid", um dos singles, retrata a busca de forças e a luta praticamente contra tudo e contra todos. Como citado acima, o disco vai do pop à partes mais extremas do heavy. E "The Audience" é o melhor exemplo possível. O groove que Zach Cooper causa é primordial para a canção. E para fechar, a quase-canção de luau "Peace to The Mountain" é uma das joias raras do disco. Muito se deve pela orquestração em sua parte final, com uma produção impecável.

Um disco que deixa a desejar em vista do que o Coheed apresentava há cerca de dez anos, mas que mostra total coragem da banda de partir em novos rumos, mesmo que signifique um mudança um tanto brusca em seu som.

Tracklist

  1. Island
  2. Eraser
  3. Colors
  4. Here to Mars
  5. Ghost
  6. Atlas
  7. Young Love
  8. You Got Spirit, Kid
  9. The Audience
  10. Peace to The Mountain

Produção: Jay Joyce / Coheed and Cambria

O álbum está disponível também no Spotify:




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